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domingo, 24 de novembro de 2013

Férias (4)! Sol e Peixes em Trindade e Ubatuba

Milagrosamente sobrevivemos à nossa segunda tempestade em menos de uma semana e, enfim, conseguimos escapar da Praia do Aventureiro. 

Chegar ao Cais de Angra foi um alívio. O frio ainda era intenso naquele fim de tarde, e tínhamos aprendido a lição: Precisávamos confiar - ou pelo menos dar um pouco mais de credibilidade - às previsões climáticas. Tudo que queríamos agora era um pouco de sol, como nos primeiros dias de nossas férias. E aliás, era justamente isso que a meteorologia previa para os próximos dias!

Pegamos em Angra um ônibus para Paraty e seguimos rigorosamente nosso guia pão-duro da cidade. Com a noite caindo, ainda deu tempo de fazer algumas compras no mercado e seguir rumo à Trindade. Chegamos por volta das 21h na vila e fomos direto para o Camping da Tia Carmira (R$10pp). Não estávamos tão interessados assim em acampar, e sim em alugar uma das suítes que eles têm. Demoraram um pouco para nos atender por conta do horário, mas logo nos ofereceram uma suíte quentinha com banheiro, TV e ar-condicionado por R$60 (ou R$80, com café-da-manhã). 


Negociando, fechamos por R$50 o pernoite. E quase não deu para acreditar quando entramos no quarto, super aconchegante, com uma cama gostosa e até mesmo... toalhas limpas! Meu Deus, fazia tanto tempo que não tínhamos acesso a esses luxos! Após tantos perrengues, frio e desconforto, estávamos nos sentindo na suíte presidencial de um hotel 5 estrelas.

Felicidade é ter água, uma cama macia, chuveiro quente e toalhas limpas!

Tomamos banho, cozinhamos a janta em nosso fogareiro a gás e logo depois capotamos. Desfrutamos o sono dos justos em uma noite agradabilíssima - arrisco a dizer que foi uma das noites mais confortáveis da minha vida. Não nos preocupamos em acordar cedo e, quando enfim despertamos, tivemos a maravilhosa presença do sol naquela manhã! Arrumamos preguiçosamente nossas coisas e fomos montar nossa barraca no espaço destinado ao camping, na área livre logo em frente aos quartos.


Felizmente, dessa vez iríamos fica mais tempo fora da barraca do que dentro. Mal ajeitamos nossas coisas e partimos para a praia!



O clima estava bem mais ameno, mas o tal do vento sudoeste parecia estar com potência máxima! Nunca havíamos visto a Praia do Meio daquele jeito. Na água, somente surfistas. Ainda assim, era bem melhor do que estar no frio de Aventureiro. Aliviados com essa constatação, apenas admirávamos a força da natureza sentados na areia.



De volta ao Camping da Tia Carmira, fomos almoçar, achando curioso o fato de haver apenas uma única barraca hospedada por lá - a nossa. Pendurávamos nossas roupas recém-lavadas para secar, quando uma simpática senhorinha, andando a passos curtos e suaves, veio em nossa direção. Como uma perfeita vovó, ela abraçou-nos, quis saber de onde vinhamos, como estávamos, perguntou se não havíamos sentido muito frio na noite anterior ("Dormimos no quartinho ontem", "Ah, então tá bom!") e ainda falou que, caso precisássemos, poderíamos bater na porta de sua casa a hora que quiséssemos para pegar alguns cobertores.

Surpresos com tamanho carinho e hospitalidade, logo percebemos: Aquela senhorinha era ninguém menos que a Tia Carmira, em carne e osso. Só a conhecíamos de nome e havíamos sido atendidos pelos filhos e netos dela anteriormente, mas ter o prazer de recebermos sua atenção exclusiva foi um privilégio. Agora já não éramos só hóspedes, mas também amigos.

Após mais uma boa noite de sono (incrivelmente dentro da barraca dessa vez!), decidimos ir para Ubatuba, já que Trindade fica bem próximo à divisa do Rio com São Paulo. Pegamos um ônibus para Paraty (R$3,40), e de lá um ônibus para a Divisa de Ubatuba (R$3,40). Aliás, pegar esse último ônibus é uma experiência e tanto, já que, ao contrário do que se pode imaginar, o ônibus segue 1 km adentro após a divisa. Fotos na plaquinha divisória, nem pensar. Descemos no ponto final, em frente a um bar (com uma bela cachoeira aos fundos), e subimos no ônibus paulista (R$2,90) que fica por ali mesmo, com os horários sincronizados para pegar aqueles que chegam de Paraty e levá-los até ao centro de Ubatuba. 

Quase uma hora depois - em um ônibus incrivelmente lotado para o horário -, atravessamos uma parte desconhecida da Rio-Santos para mim e chegamos à bela cidade de Ubatuba.


Nossa primeira impressão da cidade foi muito positiva. Limpa, bem urbanizada e com uma rodoviária típica de cidades pequenas, suas ruas são espaçosas, sem muito trânsito aparente e cheias de sorveterias, uma do lado da outra! Além desses detalhes, nos chamou muito a atenção a quantidade gigante de pessoas se locomovendo de skate e bicicleta.

Passeamos um pouco por ali, contemplando a praia que vai margeando o perímetro urbano. Na Rua Guarani, uma das principais vias da cidade, vimos várias lojinhas com belos souvenires e obras de arte incríveis. Aproveitamos para almoçar no Restaurante Marlim Azul, em um ambiente familiar com uma comida muito gostosa a preço justo (R$2,79/100g).

O trópico de Capricórnio passa por aqui!

No alto de minha ignorância, acabei me surpreendendo com algo que eu não fazia ideia: o interessante monumento que indica a linha imaginária do Trópico de Capricórnio, já que este atravessa o território de Ubatuba. Bem neste ponto, todo dia 22 de dezembro de cada ano, ocorre o solstício de verão. Ou seja, o verão começa primeiro em Ubatuba!

Logo em frente, nos deparamos com uma das principais atrações da cidade, o Aquário de Ubatuba. A meia-entrada custa R$9, e vale cada centavo. Lá dentro, um mundo novo surge, repleto das mais variadas espécies aquáticas, que não se vê todo dia por aí.



Vamos adentrando os corredores, que mais parecem labirintos, apreciando cada viveiro que abrigam as mais bonitas - e estranhas! - criaturas.



Desde os peixes exóticos aos mais comuns, passando por lagostas e caranguejos, polvos e moreias, moluscos e medusas, não há um só ser d'água que não esteja ali presente.


E não para por aí, répteis e anfíbios também têm seu espaço.



E para nos encantar de vez, eles mesmos, os pinguins!



Só pra constar, esses são pinguins oriundos da Antártida, e não da Praia do Aventureiro!


Os bichos parecem se divertir por lá, pulando e comendo bastante - há até um horário reservado para a alimentação deles, onde as crianças podem jogar peixes.

Para aterrorizar, tan tan tan tan tan tan, os tubarões!


E logo depois, toda a fofura das estrelas-do-mar. Deixam até tocá-las!


A parte viva do aquário acaba por aí - e acredite, ela é bem extensa, dá para "perder" o dia todo por ali. Logo em seguida vamos para a parte mais conscientizadora do lugar, onde existem uma série de atividades para crianças e adultos aprenderem um pouco mais sobre sustentabilidade e o problema da poluição dos estuários.

Adianto desde já, é uma parte triste. Quilos de lixos inimagináveis coletados das praias da região são expostos, e o resultado disso tudo também: Animais mortos, sufocados e feridos por conta de toda essa sujeira.

Imagine andar na praia e dar de cara com o Fofão!

Filhotes de golfinho embalsamados

O passeio todo é uma verdadeira aula sobre as características e particularidades do ambiente marinho, seus desafios e soluções. Sem dúvida é um programa para todas as idades, duvido que alguém possa sair de lá insatisfeito, sem ter aprendido alguma coisa de útil.

Saímos de lá ainda de tarde e seguimos em direção à rodoviária. Nossa intenção era pegar um ônibus para uma das praias mais bonitas de Ubatuba, a Praia da Fazenda. Mas não era só por causa da beleza do lugar que queríamos ir até lá. Havíamos comprado uma caixa de bombons para entregar a D. Laura, uma importante personagem deste blog, presente na minha narrativa de quando pedalei do Rio até Ubatuba. Resumidamente, esta senhora foi uma mãe para mim ao me receber em sua casa de braços abertos, mesmo sem me conhecer, oferecendo me abrigo enquanto eu estava às vias de ser expulso do Parque Estadual da Serra do Mar.

Pegamos um ônibus cujo motorista garantiu que passaria por lá, mas no meio do caminho acabou percebendo o engano e nos abandonou na Praia da Almada, há uns 2km de distância. Revoltados, resmungamos um pouco, e acabamos concluindo o caminho andando pela estrada, mesmo.


Chegamos na Praia da Fazenda já no fim da tarde, e fomos seguindo pela areia até encontrar a casa.

Segurando a caixa de bombom na praia

Encontramos a casa, mas infelizmente a dona não estava. Chamamos, batemos palmas, até arrisquei abrir a porta - que estava destrancada! -, mas preferi não invadir a privacidade de ninguém. Apenas deixei então os bombons na entrada, com um cartãozinho colado preenchido de um recado, um agradecimento eterno, pelo tamanho carinho ao qual ele me tratou.

Na estrada novamente, nos demos conta que os horários entre os ônibus são muito espaçados. Anoiteceu, e ainda estávamos no acostamento, aguardando a condução que tardava a vir. Com tanta escuridão, era impossível enxergar algo, a não ser os faróis acessos dos veículos. Por sorte demos sinal ao ônibus correto, que em pouco tempo nos levava de volta à Paraty. Descemos no trevo de Trindade e de lá voltamos ao nosso aconchego no Camping da Tia Carmira.


E mais um dia bonito amanhecia em Trindade. Dessa vez, ficamos na Praia dos Ranchos mesmo, a mais próxima do camping - era só atravessar a rua!

Era nosso último dia de férias e escolhemos aquele belo dia para relaxar. Depois de muita praia, cozinhamos nosso delicioso almoço no fogareiro. Nunca imaginei que sardinha e feijão enlatado pudesse ser uma combinação tão boa!


Acordamos no outro dia com um misto de alegria e tristeza. Felizes por termos tirado um tempo só para nós dois. Enquanto o Papa visitava o Brasil e o Rio parava, estávamos bem longe de toda a confusão e tínhamos nossas próprias programações. E tristes porque tudo que é bom acaba, era hora de voltar pra casa.


E lá fomos nós subir a Serra do Deus-me-livre. Entre suas curvas que nos fazem suspirar, ora de medo, ora de admiração pela beleza ao redor, trocávamos sorrisos e abraços. Afinal, mesmo depois de tudo que passamos, estávamos nós dois ali, vivos, são e salvos, mas principalmente... unidos.

sábado, 23 de novembro de 2013

Férias (3)! Desventuras na Praia do Aventureiro

AVISO: O RELATO A SEGUIR CONTÉM FOTOS DE UMA DAS PRAIAS MAIS LINDAS DO BRASIL EM CONDIÇÕES CLIMÁTICAS COMPLETAMENTE IMPRÓPRIAS. CASO DESEJE VER FOTOS REALMENTE BONITAS DA PRAIA DO AVENTUREIRO, ACESSE O POST DO BLOG "DEIXA DE FRESCURA".

Ou simplesmente deixe de frescura e acompanhe-nos nessa viagem cheia de fortes emoções!

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Já havíamos alternado entre o paraíso e o inferno nos primeiros dias de nossas férias.


Tínhamos acabado de sair ilesos da implacável fúria do mar e, enfim, pisávamos nas areias encharcadas da Praia de Provetá. A temperatura não era das mais agradáveis, o céu estava completamente nublado e uma chuva fraca, mas insistente, além de nos molhar também servia para pavimentar nosso caminho com lama.



Seguiríamos, eu, minha esposa (ainda indisposta pela longa viagem de barco) e um casal de mochileiros que conhecemos na viagem pela trilha que liga Provetá ao Aventureiro - a temida "T09", considerada uma das trilhas de nível mais pesado da Ilha Grande. 

O acesso ao início da trilha não é dos mais simples e foi necessário perguntar umas duas vezes aos moradores até acertarmos o caminho. De início, parecia ser só mais uma trilha íngreme típica da ilha. Andando a passos comedidos, logo chegamos a um mirante onde podíamos contemplar uma vista soberba de toda a extensão do vilarejo.


Carol, ainda sem sentir o "peso" da trilha

Mas conforme íamos seguindo em frente, logo a trilha mostrava o porquê era considerada "pesada": Cada vez mais inclinada, com a mata se fechando e caminhos tortuosos em meio a pedras e lama, a T09 parecia ter vida própria e querer dificultar nosso caminho. Carol não estava nada bem por conta de seu enjoo no trajeto de barco e foi diminuindo mais o passo. Nossos amigos mochileiros bem que foram solícitos e educadamente fizeram menção de continuar conosco em nossa velocidade reduzida, mas agradecemos e pedimos que eles fossem adiante. Já era um pouco tarde e em breve a noite cairia. Se eles ao menos chegassem antes da gente, poderiam solicitar ajuda caso demorássemos a chegar.

Com os ânimos - e saúde - da minha esposa debilitados, procurei tomar as rédeas da situação e resolvi carregar as bagagens dela também. Ao todo, eu estava carregando uns 16kg, entre mochilas e barraca. Ainda assim, tentava dar o máximo de mim na subida constante e forçava minha mente a não considerar a dor do esforço. Carol, entretanto, mesmo sem levar pesos ainda assim parava de tempos em tempos - cada vez mais curtos entre si - durante a trilha, para aliviar as câimbras nas pernas e tomar um pouco de ar. De forma um tanto ríspida, tentava motivá-la ao pior estilo de "preparador físico de lutador de boxe" falando pra ela descansar enquanto andasse, diminuir o passo, mas que não parasse de andar em hipótese alguma, já que isso atrasaria nossa chegada até a Praia do Aventureiro - o que significava andar na trilha durante a noite.

Evidentemente que minhas palavras indelicadas não surtiram muito efeito e Carol parecia estar entregando os pontos. Em determinado momento, chegou a sugerir que acampássemos no meio da trilha, mesmo. Mas isso não era uma opção, já que o solo era tudo, menos plano, e ainda tínhamos alguns minutos de sol. Com um pouco mais de esforço chegaríamos ao nosso destino, era só dar um passo de cada vez. E foi isso que fizemos, literalmente.

A extenuante subida que parecia nunca acabar, de repente acabou. "Chegamos ao topo", pensamos juntos. Fomos então descendo, acompanhados do barulho do mar que nos enganava, nos fazendo pensar que na próxima curva já chegaríamos até ele. Claro que isso não aconteceu tão rápido, e foram necessárias várias e várias curvas, em um ziguezague íngreme e enjoativo que fazia meu joelho quase urrar de dor, até vermos os primeiros sinais de "civilização" e termos certeza de que estávamos chegando.

Como se fosse para nos brindar com a chegada, a trilha nos reservava um último e derradeiro declive, completamente escorregadio, que nos fez perder o equilíbrio e sujar nossas roupas já imundas de suor e água do mar. Tombo levado, nos erguemos e deslumbrávamos: Havíamos, enfim, chegado à Praia do Aventureiro!

Já passavam das 18h30, o lusco-fusco dava lugar às trevas noturnas. Cansados, sentamos no primeiro banco de madeira que vimos por perto. Desabado, larguei nossas mochilas e barraca, e já sem energia, pela primeira vez senti forte as dores musculares que me acompanhariam nos próximos dias. Carol - que agora parecia estar com as esperanças renovadas após chegar na praia - foi em direção ao camping mais próximo, o Camping do Luís, onde nossos amigos mochileiros disseram que iriam estar

Alguns poucos minutos depois Carol voltava com as informações, e meio assustada também. Apesar de barato (R$15pp), o camping parecia estar bem cheio e mal-frequentado, já que bebidas e maconha pareciam estar liberadas. Além disso, enquanto estava por lá, alguns campistas haviam a "cantado" de maneira desrespeitosa. 

- Veja só como você é linda, meu Amor - tentei suavizar -, mesmo depois de vomitar a viagem inteira e fazer uma trilha dessas, você ainda recebe cantada!

Apesar da brincadeira, minha intenção era de não ficar por ali. Mas logo os mochileiros que havíamos conhecido no barco surgiram e foram falar conosco, felizes por termos chegado, e se mostraram tão educados que seria uma desfeita não ficar no camping indicado por eles. Além do mais, verdade seja dita: Estávamos mortos de cansaço. Apesar de saber que haviam outros campings na praia, a escuridão impedia uma busca perfeita. A Praia do Aventureiro é bem isolada, sem energia elétrica, internet, ou sinal de celular, e a única iluminação que tínhamos era justamente a do Camping do Luís - alimentada por algum tipo de gerador. Por fim, a existência de chuveiros quentes no local definiu de vez nossa permanência. Logo montamos nossa barraca e ajeitamos nossas coisas, não sem antes recebermos as boas-vindas de um dos moradores:


A noite se mostrou difícil: Em parte porque a chuva, que ainda não havia dado trégua, aumentou bastante pela madrugada. Junto com ela, o barulho insuportável dos campistas - que mais tarde eu viria a saber, tratavam-se de adolescentes filhinhos-de-papai, viciados em bebida, maconha e música ruim (não necessariamente nessa ordem). Para piorar, todas as nossas roupas estavam bem sujas e a quantidade de gente na fila do único chuveiro quente nos fez apelar para uma água gelada em um ambiente cuja temperatura começava a baixar seriamente.

Dormimos não muito bem e acordamos preguiçosamente em um dia frio, de ondas fortes e clima instável.


Definitivamente, o dia não era dos melhores que o Aventureiro já teve. Na praia, somente os urubus se arriscavam.



A muito custo, decidimos então sair de nossas barracas e tentar encarar a praia cuja origem do nome começávamos aos poucos entender.

E isso lá é roupa de ir à praia?



Curiosos que somos, fomos andando até o fim da praia e, agora sim, enxergamos os outros campings da região (18 ao total). Há campings para todos os gostos, escondidos, em frente à praia, em cima do morro... Entretanto, nenhum deles nos pareceu ter algum tipo de estrutura que os diferenciasse, exceto um espaço para acampar e banheiros. Com todos os problemas que já havíamos visto no Camping do Luís, é necessário dizer que esse camping tem o mérito de conseguir fazer um "milagre" no Aventureiro: ter alguma iluminação, ser amplo, apresentável, razoavelmente limpo e até mesmo vender refeições, lanches e produtos úteis - tudo, é claro, a um preço exorbitante.

Seguindo em frente, vimos a Associação de Moradores do Aventureiro, onde teoricamente teríamos que apresentar nossas pulseiras de acesso à praia. Fechada, logo vimos que a necessidade desse tipo de controle dá-se somente na alta temporada. E vamos caminhando...



Reconhecida pela sua beleza estonteante, a Praia do Aventureiro estava com um aspecto assustador naquele dia. Praia tropical com cara de Patagônia, para dizer o mínimo.




Com o tempo, até que começamos a apreciar aquela paisagem "diferente". É claro que preferíamos um dia ensolarado, mas não é que mesmo com todas aquelas nuvens o Aventureiro ainda tinha o seu charme?




De alguma forma, os 50 tons de cinza da paisagem começavam a nos envolver.

Se você já não aguenta mais tanta foto "ruim", calma. Ainda temos a cereja do bolo! Sabe aquela imagem linda de cartão postal da Praia do Aventureiro, com seu imponente coqueiro retorcido e o mar azul celeste ao fundo? Então, virou isso:


Que diferença, hein?


Não é pose: estava frio mesmo.

Com a temperatura na casa dos 12ºC e as roupas ainda úmidas do dia anterior - como secar sem sol? -, o frio começou a nos atrapalhar a decidimos voltar para o camping.


Capela de Sta. Cruz, parte da paisagem da Praia do Aventureiro

Não havíamos dado a devida importância à previsão do tempo e julgamos que as chuvas seriam apenas passageiras e o sol logo surgiria. Isso, infelizmente, não ia acontecer. Subestimamos o trabalho dos meteorologistas e acabaríamos pagando caro por isso.

Por sorte - ou precaução exagerada -, havíamos nos suprido de bastante mantimentos nas mochilas. Toda aquela quantidade monumental de arroz, macarrão, sardinha e atum enlatado, além de alguns legumes, que tanto pesaram no caminho na ida, nos garantiriam pelo menos uma semana de "sobrevivência" por lá. Claro, não queríamos chegar a tanto, ao menos não naquelas condições.

Mas pensar em "ficar" não era uma escolha, e sim uma imposição da natureza. Com o frio, chuva e os ventos que começavam a soprar do sudoeste, até mesmo as caras embarcações que fazem o translado entre o Aventureiro até o Cais de Angra foram interrompidas. Refazer a trilha de volta até Provetá e de lá tentar um barco poderia ser uma opção, mas não tínhamos mais condições físicas para isso.

A praia vista desde a barraca: Essa foi nossa visão durante todos os dias.

E aí, então, começou nosso segundo inferno. Os enorme grupo de campistas que estavam no Camping do Luís - uma molecada irritante na faixa dos 16-18 anos - eram extremamente barulhentos, bagunceiros, desleixados e falastrões. O cheiro de uma certa erva queimada era constante, mesmo com os avisos de "Não use drogas no camping" ao redor. As filas para o banheiro eram sempre gigantes e a cozinha estava sempre imunda porque os príncipes e princesas não eram capazes de lavar a louça após o uso.

Com o frio cada vez maior, eu e Carol nos abrigamos na barraca e de lá só saíamos para comer ou ir ao banheiro. Já os aborrecentes, entre um ou outro baseado, colocavam suas roupas de surf e saiam esbarrando em tudo, gritando, xingando, gemendo... Em determinado momento, tiveram a maravilhosa ideia de jogar futebol... em meio as barracas!

Ao ouvir os chutes tão perto, já fiquei com os nervos à flor da pele, mas Carol me segurou e impediu que eu fosse reclamar. Em questão de minutos, porém, marcaram um gol bem na nossa barraca... Chega, aquela era a gota d'água! Rapidamente abri o zíper da barraca, peguei a bola e joguei longe - não sem antes ofender a 5ª geração de toda a família dos que estavam ali presentes. Acreditem, eu sou a pessoa mais calma do mundo. Para ter chegado a esse extremo, é porque a situação REALMENTE estava ruim.

"Ilhados" dentro da barraca. Notem minha expressão animada.

Nossa barraca. Pelo menos a vista era privilegiada...

Mais uma noite se aproximava, e com ela uma forte ventania e ainda mais chuva. Enclausurados, tentávamos dormir da maneira mais confortável que podíamos - mesmo com roupas sujas, molhadas, com um clima terrível e o barulho onipresente dos gritos e baixarias de nossos vizinhos, que estendiam-se até a madrugada. 

Carol ainda conseguia dormir - desafio as forças da natureza a produzirem um cataclisma climático ou caos social que a impeçam de adormecer! Pra mim, porém, era muito difícil pregar os olhos. Volta e meia, eu ainda tinha que sair da barraca pois o vento era forte e levava nossa lona embora, envergando nosso abrigo a graus inimagináveis e produzindo os piores rangidos possíveis. A chuva perene começava a condensar o interior da barraca.


E mais um dia amanhecia na Praia do Aventureiro. Dia estranho, desses que a gente só sabe que é dia porque está mais claro do que a noite, mas não fazemos ideia de onde está o sol.

Aproveitamos um pouco da energia acumulada de tanto fazer nada e fomos conhecer a pequena Praia do Demo, logo ao lado, praticamente uma extensão do Aventureiro com algumas pedras a mais. Praiazinha bonita, logo ao seu extremo descortinava-se o Costão do Demo, que dá acesso às praias mais preservadas da Ilha Grande: Praia do Sul e Praia do Leste.

A travessia, contudo, é proibida - não há pulserinha que permita o acesso à elas. O que, obviamente, não impede que aventureiros mais habilidosos desafiem a forte inclinação da pedra e cheguem até o outro lado. Vimos algumas pessoas fazendo isso por lá e, mais tarde, já no camping, conhecemos um casal que havia atravessado o Costão, vindo desde a Vila do Abraão, passando por Dois Rios e Parnaioca. A coragem e aparente simplicidade deles me motivou a futuramente realizar aquela minha antiga vontade de dar a volta completa a pé em Ilha Grande.

Hora do almoço, fomos cozinhar e mais uma vez nos deparamos com o espetáculo de louças emporcalhadas. Foi difícil lavar nossos pratos, pois o frio fazia a água congelar nossas mãos. Mal terminamos de comer e corremos pra barraca. Aquele seria um dia difícil.

A ausência de barcos para o trajeto de volta se confirmou e ficaríamos outra noite à deriva em nossa barraca. Calhou de, ironicamente, eu estar lendo A Incrível Viagem de Shackleton, livro absurdamente bom que conta a história de um grupo de aventureiros que tentam cruzar o continente antártico e acabam presos em um bloco de gelo. Sem perspectivas, iniciam uma jornada épica para escaparem do frio mortal. O livro é excelente. Guardada as devidas proporções, era exatamente assim que nos sentíamos. Eu era o capitão, Carol era minha tripulação e nossa barraca era o Endurance, o navio naufragado. Ilha Grande era nossa ilha gelada (infestada de pinguins maconheiros); já o mar de Angra era nosso intransponível mar de Weddell.

Iniciamos os preparos para mais uma noite de sono - ou ao menos para desagradável tentativa de descansar com roupas molhadas (imagine o estado de nossas toalhas e meias). São Pedro resolveu nos castigar um pouco mais, e além do vento, frio e chuva, fez a temperatura despencar ainda mais. Chuto algo em torno dos 7ºC pela madrugada, o que tornou a tarefa de dormir algo impossível. Carol conseguia porque seu saco de dormir era apropriado para temperaturas extremas, já o meu era apenas um pedaço de pano, algodão puro e surrado, que parecia roubar o pouco calor do meu corpo. Resultado: Uma noite completamente insône, encolhido em posição fetal, batendo o queixo, com lábios ressecados...

No meio daquele frio intenso, só uma coisa me vinha a mente: Como estariam aqueles que estavam em situação ainda pior que a minha? Digo, bem ou mal eu estava abrigado da chuva em uma barraca, tinha comida, podia até me aquecer inadvertidamente com o fogareiro a gás que trazia. Mas como suportar o frio intenso daquela madrugada sendo um mendigo, uma prostituta, desamparado em algum canto esquecido da cidade? Gente que por situações da vida ou pura necessidade estava a mercê das intempéries da natureza, e ao contrário de mim não tinham condições para livrar-se dessa condição a hora que quisessem? Foi com muita tristeza que, dias depois, vi no noticiário que aquela noite - considerada a madrugada mais fria do ano em muitas capitais - foi a responsável pela morte de vários moradores de rua.

Depois de saber disso, considerei todo meu "sofrimento" daquela noite algo fútil. A realidade cotidiana era bem mais aterrorizante. Mas naquele momento, o tempo custava a passar, já tinha perdido a sensibilidade dos pés e mãos; não relaxei um segundo sequer até o amanhecer.


Sem melhoras aparente, acordamos com uma única certeza: Iríamos até as últimas consequências e faríamos a trilha de volta para Provetá!

Toda nossa firmeza de decisão durou pouco. Encontramos o casal de mochileiros amigos nossos, que revelaram ter conseguido, enfim, um barco que poderia levar todos nós de volta até Angra. A saída seria a tarde, mas nada ainda estava confirmado, uma vez que o barqueiro precisava contar com um número mínimo de pessoas para a viagem.

"Ótimo", pensamos. "Essa molecada aí também não deve estar mais aguentando o frio e vamos todos pra casa". Mas nem sempre a lógica tem razão. Os enviados do capeta na Terra, acredite se quiser, estavam super tranquilos com seus cigarros e roupinhas de marca. Iniciou-se uma acalorada discussão entre eles, onde a maioria esmagadora queria continuar no camping enquanto uma pequena oposição queria voltar pra casa. Os argumentos de ambas as partes eram pífios. Nessa hora, tal como um cameraman do Discovery Channel, passei a observar o grupo de longe, sem interferir no ambiente, mas apenas analisando seus integrantes. Eram moças e rapazes muito jovens, majoritariamente menores de idade, que estavam acampados HÁ SEMANAS por ali sem contato com o mundo externo. Excursão de férias do colégio, certamente, mas me impressionou muito o número de meninas agarradas com seus mini-vagabundos fumantes vivendo naquele ambiente como marido e mulher. Caramba, que tipo de pai e mãe deixa uma filha ficar tanto tempo fora de casa sem se preocupar com ela? Que confiança podem ter esses pais em moleques visivelmente drogados sem muito gosto pelo batente? Pior, como esses pais tem a coragem de financiar tudo isso de maneira tão descompromissada?

Também já fui adolescente - e nem faz tanto tempo assim -, mas não me lembro de ser tão débil mental quanto 99% dos que ali estavam.

Por fim, eis que surge nossa salvação. Luís - o dono do camping - deixou sua letargia omissa de lado e se impôs. Convenhamos, nem ele mesmo devia estar mais aguentando aquela criançada por lá e tratou de inventar umas desculpas convenientes: Disse que os pais deles deviam estar preocupados, que o clima ia piorar, que ele tinha que sair e deixar o camping vazio... Um conjunto de evasivas esfarrapadas que surpreendentemente tiveram efeito! Todo mundo foi desmontar as barracas e fazer as malas. Aleluia, iríamos voltar pra casa!

Contamos ansiosamente as horas e, enfim, o "Rei Matheus" - nome da embarcação salvadora - atracou no píer do Aventureiro. Aparentemente menor, porém mais seguro e robusto do que o barco do Mestre Ernani, logo fomos até lá colocar nossas coisas e tomar assento. Até nessa hora os retardateens criaram problemas, pois não queriam carregar as bagagens até o píer e "exigiram" que o barco fosse até eles. Felizmente essa criação de caso não demorou muito e logo a horda de pirralhos seguiu seu caminho em direção ao barco, cabisbaixos e em fila como vítimas dos nazismo indo para a câmara de gás. E adivinhe com que personagem histórico eu estava me identificando nessa história? :)

Todos a bordo, era hora de zarpar. E como já era de se imaginar, as condições climáticas não haviam melhorado muito em comparação com os últimos dias. Resultado: Perrengues de viagem muito parecidos com os da viagem de ida, com direito a um chacoalhar intenso, pânico geral, enjoos, vômitos, meninas chorando, rapazes gritando, água invadindo o barco e muito, muito mais!



Eu, que já começo a me sentir um "homem do mar" desde essas experiências, já que não tenho enjoo nem medo algum dessas situações, comecei a rir sozinho por dentro ao ver todo mundo naquele desespero. Em alguns momentos, cheguei até a pensar que se por acaso o barco naufragasse e eu morresse, até que seria um sacrifício válido se aquela galerinha fosse comigo também. O mundo seria, definitivamente, um lugar melhor.


"Mas que maldade pensar assim", cheguei a conclusão logo depois. Diante daqueles olhos vermelhos - alguns de tanto chorar, outros de cannabis mesmo -, não senti mais raiva, nem ódio, nem nada, mas sim um grande sentimento de pena por todos aquelas crianças sem juízo que queriam fumar, beber e se relacionar como adultos independentes, mas que na prática eram apenas garotinhos mimados que se borravam de medo na primeira iminência de perigo. Acho até que ouvi um ou outro chamando pela mãe.


Sendo assim, passei mentalmente a não lhes desejar mais mal algum, mas sim um futuro. Que pudessem se ajuizar e tomar decisões mais corretas na vida - a começar por selecionar melhor seus amigos. Desejei-lhes que, se algo de ruim fosse acontecer a eles, que ao menos pudessem ter a oportunidade de desfrutar de uma vida digna antes, ao invés de apenas subterfúgios e alegrias passageiras. Que pudessem conhecer no trabalho, o valor do esforço, e no esforço, o valor da vida - e na vida, encontrar o amor verdadeiro, de seus pais e parceiros.

Como se estivessem em sintonia com meu pensamento zen, as ondas foram se amenizando e o mar foi ficando cada vez mais calmo. As águas já haviam maltratado muito o barco e molhado a todos nós - o que fez com que o capitão ordenasse o fechamento das janelas. Mas com a ordem restaurada, as janelas foram reabertas e um barqueiro, tentando ser gentil, insinuou que haviam golfinhos por ali. O desânimo de alguns então deu lugar à curiosidade - mesmo que infrutífera, já que golfinho nenhum foi visto.

Fomos chegando cada vez mais perto de Angra - incrível como essa cidade é feia, é basicamente uma favela com praias! - e logo um dos garotos, com medo de levar a sobra da droga pra casa, resolveu confeccionar um super cigarro como seu gran finale. O "bagulho" devia ter uns 5 cm de diâmetro (sem exagero) e aparentava estar misturado com haxixe ou algo pior, haja vista as tosses consequentes de todos durante o trago. E assim, chegando ao cais, todos riam e se divertiam com o ocorrido - até eu, não sei se pela graça da coisa ou pela fumaça que começava a surtir efeito.

Em algum momento, ainda na praia, haviam dito que "em Angra está mais frio". Seja lá quem tenha dito, era verdade. Ao pisarmos no cais, sentimos a brisa fria de um inverno incomum. Ainda assim, as previsões dali em diante eram melhores. Sem pestanejar, decidimos continuar nossas férias, dessa vez até Trindade (RJ) e Ubatuba (SP), onde certamente poderíamos desfrutar de um dia ensolarado nos próximos dias. 

Depois de tanto infortúnio, merecíamos um descanso. Mesmo que o vento do sudoeste continuasse a provocar suas ondas gigantes...


Próximo capítulo: Trindade e Ubatuba!