Páginas

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

[Especial Paraty] FLIP + Trindade

desmistificamos aqui no blog a ideia de que Paraty seja um lugar caro para se visitar.

Ainda assim, todo ano, durante a Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP), a mesma história se repete: Hotéis, pousadas e até mesmo albergues elevam os preços de suas diárias a um patamar absurdo. Não é incomum encontrar valores duplicados ou até mesmo triplicados neste período. Isso sem contar os inúmeros pacotes turísticos que cobram milhares de reais apenas por um lugar para passar a noite.

O resultado dessa farra é óbvio: O evento fica com fama de elitista, os meios de hospedagem têm prejuízo porque não conseguem a ocupação desejada e muitas pessoas que adorariam visitar a cidade e conhecer a feira simplesmente ficam de fora porque, aparentemente, é impossível viajar pra lá na data do evento sem desembolsar uma boa quantia de dinheiro.

Pois bem: Hoje eu vou contar a história de como eu visitei a feira literária mais badalada do Brasil e ainda me hospedei na cidade gastando... R$10. Duvida? Vem comigo!


FLIP

Saímos de casa - eu e minha esposa - ainda no sábado pela manhã, seguindo nosso roteiro econômico de ônibus do Rio à Paraty. Chegamos bem no horário do almoço, e fizemos a nossa visita de sempre no Restaurante da Baiana (R$2,69/100g). Ao nos encaminharmos para o Centro Histórico - surpresa -, tudo ainda parecia meio vazio.



Mas foi só andar mais um pouco para ver que, na verdade, as ruelas estavam bem cheias, sim!



A FLIP é um evento que reúne pessoas de todas as partes do Brasil e do mundo. Escritores, artistas e intelectuais em geral, que vão à feira prestigiar seus autores preferidos, assistir palestras ou simplesmente aproveitar às atrações paralelas.



É incrível como o Centro Histórico de Paraty se transforma durante o evento. Decorações especiais, que vão de acordo com o tema do ano da FLIP, se espalham pelos quatro cantos. Neste ano (2013), o tema era Graciliano Ramos, e sua obra repleta de referências à cultura nordestina criou vida nos arredores da praça principal.



É necessário lembrar, contudo, que a atração principal da FLIP é a Tenda dos Autores, um espaço reservado, com cadeiras e ar-condicionado. Para ficar lá dentro, é necessário comprar o ingresso (R$46). Pra quem não liga muito pra isso, existe também a possibilidade de ficar na Tenda do Telão e assistir a transmissão das palestras do lado de fora por R$22.


E é claro, existe a minha alternativa preferida: Como a Tenda do Telão não tem paredes, basta ficar do lado externo dela (acredite, você não será o único) assistindo a mesma coisa de quem está lá dentro sentado. Outro ponto interessante é que, ao menos nessa última edição, o Banco Itaú - um dos patrocinadores do evento - disponibilizou a todos um criativo banquinho dobrável de papelão, com capacidade de 100kg. 


Agora não tem mais desculpa: Você pode ir à FLIP, assistir às palestras praticamente de camarote e não gastar absolutamente nada com isso.


Não deixe também de participar da programação paralela ao evento, com palestras gratuitas, estandes e livrarias itinerantes, peças de teatro, sarais, e é claro, a Flipinha, versão da FLIP para crianças. 


Com diversos livros de histórias infantis pendurados à disposição para leitura, a Flipinha é a alegria da criançada - e é claro, dos adultos também, especialmente professores.


A FLIP também é uma interessante catalisadora cultural, atraindo manifestações de todos os tipos - como um grupo de artistas estrangeiros bem animados, que faziam um show inesperado, divertindo a plateia instantânea que por ali se formava. Entre uma ou outra frase com forte sotaque, emendavam um jazz extremamente dançante, a troco de palmas e alguma contribuição que os permitissem prosseguir com sua arte músico-mochileira por aí.

Os caras eram realmente muito bons.



Já ia entardecendo e íamos nos encaminhando para Trindade, bairro de Paraty um pouco mais afastado do centro da cidade, mas com as melhores praias - e preços de hospedagem mais em conta. No caminho, ainda no Centro Histórico, não pude deixar de perceber a recente invasão de imigrantes (peruanos? bolivianos?) na cidade, também aproveitando a oportunidade para vender seus artesanatos típicos.




Muitos turistas compravam indiscriminadamente suas bugigangas. Apesar da atmosfera cultural da cidade naquele dia, percebia-se claramente que nossos hermanos latino-americanos não estavam ali desempenhado apenas uma manifestação de sua cultura, mas sim buscando uma maneira emergencial de sobrevivência. Eram muitos imigrantes, muitos mesmo, e não pude deixar de me questionar onde, afinal, todo aquele povo passaria a noite.


A parte mais chocante pra mim, no entanto, foi ver a quantidade de crianças que, na mesma situação que seus pais, utilizavam-se de copinhos plásticos para pedir esmolas. Em determinado momento, atraíram bastante a atenção ao começarem a cantar canções típicas. Elas não estavam ali para participar do evento, e muito provavelmente nem sequer pisaram na Flipinha, logo ali ao lado. Maltrapilhos, alguns bem sujinhos e com roupas rasgadas, a música que entoavam dava um ar melancólico a um espetáculo já triste de abandono e desigualdade social.


Saindo do Centro Histórico, logo chegamos a Rodoviária, onde pegamos o ônibus que passa de hora em hora para Trindade.

TRINDADE

O caminho para Trindade pode assustar um pouco os desavisados, já que o ônibus passa pela "Serra do Deus me Livre", que faz jus ao nome. Com curvas fechadíssimas, ângulos estreitos, subidas íngremes e descidas aterradoras, a impressão que se tem é que o motorista perderá o controle do veículo e a qualquer momento despencaremos do penhasco em direção à praia - sempre visível durante os trechos mais altos do trajeto.


  
A viagem é uma experiência tão única, que o clima de montanha-russa toma conta dos passageiros. Com direito a "uhuuuuu" a cada descida e "aêêêê" a cada curva, não se espante com a possível salva de palmas que o condutor do véiculo - merecidamente - possa receber ao concluir o trajeto.

Felizmente, chega-se quase sempre são e salvo à Trindade.



O mapa completo da região de Trindade é mais simples do que aparenta ser. As praias Brava e do Cepilho são as mais afastadas, e também as que mais atraem os surfistas em busca de boas ondas. Já as praias de Fora e dos Ranchos, praticamente uma praia só, são as que concentram maiores opções de hospedagem e alimentação, além de toda a infraestrutura básica da Vila de Trindade.



O mapa da Vila de Trindade é mais simples ainda, haja vista que basicamente, só existe uma rua principal e uma bifurcação que leva às praias mais selvagens - do Meio e Cachadaço.



Ao chegarmos na rua principal, fomos em busca de algum camping. Existem, basicamente, três "categorias" de campings em Trindade: 
  • Os que são bem em frente à praia - com as melhores vistas, mas geralmente mais cheios, mais caros e sofrem com o barulho das ondas em dias de ressaca; 
  • Os que ficam na rua principal - geralmente mais baratos por conta da alta oferta, com ocupação média e sempre "perto de tudo";
  • Os que são ligeiramente mais afastados da rua principal e da praia, nas ruas paralelas - geralmente mais silenciosos e com menos gente, mas distantes uns três ou quatro minutos de tudo.
Fomos em vários deles, e as diárias variavam de R$20 a R$15. Quando estávamos quase fechando com um de R$15, vimos uma placa que nos chamou a atenção:


Estacionamento com "banheiro e ducha"? Ué, pra mim isso é quase um camping!


E pra tirar de vez nossas dúvidas, uma placa logo ao lado deixava bem claro que, "Ei, também somos um camping, viu?".


Barracas lado a lado de carros de passeio, taí uma coisa que eu não tinha visto antes.


Apesar disso, o ambiente do Camping da Tia Carmira é bem acolhedor, seguro e com uma infraestrutura básica, que permite banhos quentes a partir das 18h. Cozinha não existe, mas também não encontramos nenhum outro camping por perto que oferecesse o serviço - nem mesmo o que cobravam mais caro.

Já alojados e com nossa tenda beduína armada, ainda conseguimos aproveitar um pouco a Praia dos Ranchos - era só atravessar a rua.



À noite, fomos em busca de alguma boa opção de jantar. Logo percebemos que, apesar dos preços baratos de hospedagem mesmo durante a FLIP, os preços de alimentação em Trindade tendem a ser mais caros do que no centro de Paraty, compensando perigosamente qualquer economia.

Média de preços dos lanches em Trindade: Cotação em dólar, euro ou libra?

Felizmente também existem várias opções de lanchonetes espalhadas pela rua principal da Vila. Optamos por uma simpática pizzaria, com preços nem tão estratosféricos assim. Nos serviram uma pizza grande caprichada (R$27), o atendimento era excelente. Talvez não seja coincidência o fato de que a maioria dos atendentes em Trindade têm sotaque paulista.

Após uma agradável noite de sono (somente interrompida por um carro vizinho que precisou sair e ligou o farol alto, que situação bizarra!), fomos aproveitar a manhã de sol para aproveitar as praias mais selvagens de Trindade: do Meio e do Cachadaço. Ah, e claro, a Piscina Natural do Cachadaço também.


No caminho para a Praia do Meio, eu, que ainda sou mais acostumado com a proibição de veículos motorizados em Ilha Grande, sempre me espanto quando vejo carros passando livremente nas trilhas em Trindade.


Ainda assim, em determinado momento eles tem que parar. E aí, neste momento, é só você e a praia. Hora de tirar os chinelos, pisar na areia fofinha, sentir a água deliciosa do mar... Isto é Trindade!


A Praia do Meio é linda, mas como pode ser facilmente acessada por veículos, é natural que ela seja bem movimentada. Além disso, é onde concentram-se quiosques que atraem vários turistas.


Por isso, depois de curtir bastante a Praia do Meio, seguimos pela pequena e bem estruturada trilha que nos leva até a Praia do Cachadaço. Que praia linda!



Para onde quer que se olhe, a Praia do Cachadaço tem ares de paraíso na terra. Como não se emocionar com uma areia tão branca e um conjunto de céu e mar tão azuis?


Tudo belamente emoldurado bela natureza com um verde espetacular.



Após um bom tempo na Praia do Cachadaço, é hora de recuperar as forças e seguir um pouco mais adiante. Uma outra trilha surge, com destino a Piscina Natural do Cachadaço.


A Piscina Natural é bem pequena para os padrões das praias de Trindade e tende a ser rasa em sua maior parte - exceto nas suas extremidades, onde a água mais profunda permite mergulhos sensacionais para a observação da vida marinha.



Mas naquele dia não foi necessário nenhum esforço para ver os peixes.



Bastava andar e eles logos apareciam, como se quisessem brincar conosco. Alguns turistas jogavam pequenos pedaços de pão na água, criando uma aglomeração fascinante de lindos peixinhos.



Hora do almoço, que tal um sushi hardcore?


Aproveitando a maré rasa, atravessamos a piscina em direção às pedras em seu fundo. Mais belezas naturais nos aguardavam!



A Piscina Natural do Cachadaço, por outro ângulo:


Uma passarela de madeira instalada recentemente no local - e que surpreendentemente ficou bem harmônica - dá o charme final à Piscina Natural do Cachadaço, formando um belo mirante para as outras praias.




E nós, que estávamos indo à Paraty em plena FLIP, temerosos sobre o quanto gastaríamos, acabamos saindo no lucro - não financeiramente falando, mas sim em termos de paisagens.

Afinal, paisagens como essas não têm preço.

3 comentários:

  1. Fantástico relato!! Vou colocar Trindade na lista de destinos. Dá para chegar de bike com algum esforço também. Tenho uma observação a fazer, se não me engano as pessoas que você rotulou como peruanos, são na verdade de uma comunidade indígena da região e vão à cidade vender seu artesanato a turistas. Eles costumam ir a cidade também aos finais de semana a tarde/noite, quando há fluxo de turistas. =)

    ResponderExcluir
  2. Parabéns pelo relato e fotos. Gostei muito e sempre aprendo lendo seu site. Quando fui à Paraty, além de pedalar e curtir tudo... dá pra ir de Paraty para Trindade de Barco, o passeio é bonito e vale a pena saindo do Cais de Paraty

    ***Cicloabraços***
    Joaozinho

    ResponderExcluir
  3. Nossa que relato perfeito...
    Não vejo a hora de chegar Janeiro para eu acampar em Trindade...
    Vou fazer oque você fez ir por conta e chegando lá procurar uma lugar para acampar.. pretendo ficar 5 dias no minimo, pretendo gastar no máximo uns 150 Reais em hospedagem.

    As suas fotos são perfeitas!!!!

    ResponderExcluir

Comente, sugira, critique!