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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Ilha do Martins (Itaguaí/RJ) - Um Paraíso Ameaçado

Toda viagem tem uma história. Um porquê de ter acontecido. E essa não é diferente.
De vez em quando, descobrimos novos lugares através de um anúncio de jornal ou revista, de uma propaganda na TV, através da sugestão de um amigo ou até mesmo quando vamos bisbilhotar a vida alheia nas redes sociais...

E em meados de 2010, lá estava eu zanzando pelo finado Orkut até que vi o perfil de uma ex-namorada que havia recentemente mudado seu status para "Namorando". Curioso que sou, fui imediatamente acessar o álbum dela para cumprir um interessante ritual do universo masculino: Sorrateiramente, procuramos analisar as características físicas dos novos namorados de nossas Ex's... Uma vez constatada a feiura do coitado, rimos por dentro e ficamos orgulhosos de nossa superioridade.
Não estou brincando, isso é um costume universal.

Contudo, eu tive uma intragável surpresa. Nas fotos, surgia um cara loiro, de olhos claros, musculoso, provavelmente mais velho e mais alto do que eu. "Putz", pensei. E como se não bastasse, por detrás dos dois pombinhos havia uma belíssima praia, de areias claras, com uma água de coloração verde translúcida, repleta de coqueiros e muitas, muitas árvores, sem absolutamente nenhuma vivalma por perto. Um verdadeiro paraíso.

Já reconhecendo a derrota, ainda tive tempo de verificar a descrição da foto, que apontava para uma tal de "Ilha do Martins". Ou seja, o rapaz além de bonitão, ainda devia ser rico - eu pensava com meus botões -, pois só alguém muito rico pode levar a namorada para uma ilha deserta!
Deixei pra lá aquilo tudo e fui me distrair. Ainda assim, aquele beleza estonteante (a da Ilha, não a do cara, por favor!) teimava em não sair da minha cabeça. Pesquisei sobre a Ilha infrutiferamente no Google, que apresentava resultado confusos - lembre-se, isso foi há mais de três anos -, e fiquei mais perdido ainda. Acabei deixando o orgulho de lado e apelei para um scrap à ex-namorada, perguntando, afinal, onde ficava a tal daquela ilha.
Pouco tempo depois, uma surpreendente resposta: A ilha ficava em Itaguaí, município limítrofe do Rio de Janeiro, muito perto do bairro onde moro. Retive o máximo de informações que pude dela e fui paulatinamente descobrindo que ir à Ilha do Martins seria muito mais fácil - e barato - do que eu pensava. 

"É, pelo menos o cara não é rico", eu me consolava.

Já falei de Itaguaí aqui em outras oportunidades. É um município da região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro, estigmatizado por sua relativa distância da capital ao passo que até bem pouco tempo era considerado uma grandessíssima roça. Hoje, com um dos maiores Portos do país e um rico polo industrial, Itaguaí chama mais a atenção por seu desenvolvimento econômico do que por suas belezas naturais. Mas elas existem e estão ao alcance de todos!

O trajeto para a Ilha do Martins era bem simples. Eu tinha a opção de pegar um ônibus/van/kombi do centro de Itaguaí para o bairro chamado Ilha da Madeira - que a despeito do nome, não é propriamente uma ilha -, ou pegar no Rio mesmo o ônibus da linha 738P - Campo Grande x Ilha da Madeira (R3,20). Uma vez chegando na Ilha da Madeira, era só escolher um dos inúmeros barco-táxis que ficam na praia à disposição para ir até a Ilha do Martins, numa viagem de aproximadamente 15 minutos ao custo de R$5 pp (valor referente a 2010, é provável que o preço atual tenha sofrido alguma leve variação).
Taxi-boats na Ilha da Madeira, em Itaguaí (RJ)

Gostei tanto da Ilha do Martins que fui duas vezes na mesma semana, uma com a minha namorada - atual esposa - e outra com meu amigo Pedro. Em comum, uma viagem inesquecível de barco pela Baía de Sepetiba, que apesar de sofrer com o descaso público no que se refere à proteção ambiental, continua linda.

A viagem de barco já é um passeio e tanto e já valeria a viagem. Da primeira vez, tivemos a sorte de pegar um barquinho cujo piloto era um moleque de, no máximo, uns 16 anos. O rapaz acelerava o motor à toda velocidade, e a pequena embarcação quase voava, batendo forte nas pequenas ondas - que, evidentemente, respingavam na nossa cara, fazendo-nos cuspir água salgada de vez em quando...


Mas com exceção desse pequeno detalhe, a cada milha avançada o mar vai ficando mais verdinho, e algumas ilhotas vão surgindo pelo caminho antes de chegar ao destino.


Além, é claro, da onipresença do Porto de Itaguaí, visível durante o trajeto.

E enfim, chegamos à Ilha do Martins!
O ancoradouro é na Praia do Funil, e logo percebe-se que a ilha não é tão deserta assim. Em contraste com o pouco movimento, haviam algumas casas construídas à beira da praia e um incipiente comércio de pequenos bares que formavam a paisagem, junto com as palmeiras, coqueiros e amendoeiras.
Para ser bem sincero, essa parte mais povoada da ilha não chama tanto a atenção. Logo abandonamos a água fria e a areia grossa da Praia do Funil e pegamos uma minúscula trilha no final da praia, que nos levaria adiante para "o outro lado da Ilha do Martins". 
A trilha é realmente pequena, e seu visual é maravilhoso.

Após uma subidinha, vamos nos aproximando de uma pequena parte de trilha cimentada, com algumas casas construídas ao redor. Não se assuste, pois é justamente nessa parte que é muito comum encontramos um simpático cachorro sem nome, aparentemente o único da Ilha, que sempre recebe de patas abertas os visitantes. Ele apareceria mais vezes ao longo da viagem...
Mal nos despedíamos do cãozinho e - OH MEU DEUS! - ao final do caminho a paisagem muda completamente. Um mar verde claro de proporções tailandesas surge lá em baixo, e um bonito coqueiro nos convida a tirar uma foto clichê:



A partir daí inicia-se uma descida que nos leva direto à praia que contemplávamos lá de cima. À beira-mar, há algumas poucas casas, a entrada para um restaurante (que no momento estava fechado) e até mesmo uma escola - que ganharia fácil um concurso das escolas com as melhores vistas do mundo.

É ao lado da escola que existe um beco que nos leva em direção à praia mais bonita da Ilha do Martins: a Praia do Leste. Como não vimos a plaquinha indicativa, acabamos acessando a praia do outro lado pelo restaurante mesmo, que é aberto.
Mesmo com o singelo aviso de que é proibida a entrada de pessoas não autorizadas, seguimos adiante - não havia realmente ninguém nessa parte da ilha.


Dentro da mochila, os lanchinhos que garantiriam nossa sobrevivência!

Com banquinhos convidativos, o espaço do restaurante entra em completa harmonia com a paisagem natural da ilha. Mas não pegamos um ônibus e um barco para ficar sentado em banquinho! Fomos para conhecer isso:
A bela e majestosa Praia do Leste estava bem ali, na nossa frente. Com sua areia fina, água clarinha e de temperatura agradável, é quase impossível não desejar passar um dia preguiçoso deitado por lá, só ouvindo o marulho do mar e avistando de longe os navios cargueiros no horizonte.

E é claro, dar uns mergulhos também, porque a Praia do Leste possui águas calmas e tão claras, que praticamente imploram para você nadar nela. 



E olha só quem resolveu aparecer de novo:
Da vez que fui com o Pedro na Ilha, resolvemos contornar toda a sua extensão. Evidentemente que, apesar do seu tamanho diminuto, uma jornada dessa demandaria tempo e planejamento em sua execução.

Nos arriscamos a seguir caminhos tortuosos de pedras e conchas, eventualmente passando pela água - o que seria mais óbvio e mais fácil, se não tivéssemos com nossas mochilas.


Cada metro avançado em meio a escaladas nas pedras e pisões acidentais em conchas pontiagudas era uma vitória, mas logo acabamos chegando à uma espécie de quintal com praia privativa, onde um aviso ameaçador de "NÃO ENTRE - PROPRIEDADE PARTICULAR" nos fez desistir da jornada. Ou seria a dor dos ferimentos colecionados?

O peito do pé de Pedro não é preto

As horas iam passando e precisávamos ir - infelizmente, não conhecíamos as maravilhas do camping selvagem naquela época e nem dispúnhamos de uma barraca. Pretendo, em um futuro próximo, visitar novamente à Ilha do Martins e acampar por lá.
A volta pareceu ser mais demorada do que a ida, mas talvez tenha sido somente impressão nossa. Não sabíamos até que ponto o cansaço, a idade avançada do piloto ou a presença de um sósia do Andrézinho do Molejo logo ali atrás (sério, não parece?) prolongava a viagem, que já tornava-se enfadonha.

Ainda assim, tão logo pisamos em terra firme, na Ilha da Madeira, já sentíamos saudades da Ilha do Martins - e se pudéssemos, voltaríamos pra lá na mesma hora. Estou devendo um novo passeio até lá, para conferir de perto as mudanças desses últimos três anos.

As notícias infelizmente não são nada boas, principalmente do lado do continente: A Ilha da Madeira, porta de entrada para a Ilha do Martins, vem sendo devastada pela construção do Superporto Sudeste, transformando um bairro outrora residencial e turístico em um canteiro de obras repleto de poeira e barulho de máquinas. A região, que sofre com a consequência de desastres ambientais passados, tenta agora se recuperar e ir de encontro aos interesses na exploração desordenada da região.

O fato é que a grande presença de indústrias poluentes ao redor da Ilha do Martins - e da Baía de Sepetiba como um todo - são uma ameaça aos ecossistemas da região, que vêm sendo constantemente poluídos por terra, água e ar. Para piorar ainda mais a situação, com o recente desenvolvimento econômico da região, o aumento nos índices de violência são gritantes e já geram casos estapafúrdios, como por exemplo, a aparição de corpos em decomposição na Ilha do Martins, levados das periferias pelas correntes marítimas.

Apesar de tudo isso, eu ainda tenho certeza de que a Ilha do Martins ainda é um paraíso, mesmo em meio ao caos que a cidade de Itaguaí se tornou.

22 comentários:

  1. Conheci a ilha há muitos anos atrás e nunca mais esqueci,houve claras mudanças estive na seunda casa na praia do funil.Que saudade!

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  2. Gostei muito do Artigo, falou muito bem sobre a ilha ( sou suspeita de falar pois meus avós moram lá, e eu já morei lá), e quanto ao Barqueiro da volta, que foi lente, é porque na parte da tarde, sempre cai um ventinho chato chamado Leste, e impede que o piloto siga mais rapido, se ele fosse mais rapido, ou iriam virar a lancha, ou quebraria o fundo da lancha. ele foi de vagar porque conhece muiito bem aquela região, afinal ele vive sua vida toda lá, ele se chama PEDRINHO. fique feliz de saber que gostou da ilha. pode ter certeza que toda vez que voltar lá, sera bem recebido! Beijos! Jessica Mello

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    1. Jessica, é um prazer receber uma mensagem de alguém que já morou nessa ilha mágica! Que bom que gostou do meu humilde texto, tentei por em palavras e fotos um pouquinho da beleza que existe por lá.

      Vivendo e aprendendo, obrigado por me ensinar sobre o vento leste!

      Aparecerei por lá mais vezes, obrigado!

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    2. Que lindo, Jessica.
      Até eu que ainda não fui, fique apaixonada por este Post, o Menino escreve bem.
      Suas informações tambem, foram carinhosas...A dizer que ainda és apaixonada pelo lugar.

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  3. Olá,
    Conheço esta ilha somente por fotografias, infelizmente. Minha irmã já foi visita-la duas vez, e que ainda não pude ir. Estou pretendendo ir no próximo final de semana. Poderiam me informar se ainda existe ônibus ou van, saindo de Itaguaí para ilha da madeira e se os barcos ainda saem da ilha da madeira para a ilha dos martins?

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  4. Nossa...eu conheci esta ilha nos meus 18 anos (há 14 anos atrás..rs). Lugar maravilhoso, aventura total na época. Adorei ler o seu texto...Tinha a maior vontade de voltar lá e agora com suas fotos com certeza voltarei.
    Queria passar um final de semana lá....Já vi que vc postou que tem camping, então irei me aventurar mais uma vez!!! Abs

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  5. Tive o previlegio de conhecer a Ilha dos Martins ontem, através do amigo Jorge da Cruz, pretendo retornar várias vezes achei o local ótimo para curtir a natureza.

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  6. Estou trabalhando lá pelas bandas de Sepetiba e estou conhecendo a área aos pouquinhos...Ouvi falar de uma "ilha maravilhosa" onde se passa o dia lá em Itaguaí - descobri que era a ilha do Martins! Seu texto e as fotos me animaram ainda mais para visitar a dita!

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    1. Esta é apenas a ponta do Ice Berge, a ilha do martins é uma das menores da região, para um passeio completo com as melhores praias paradas nos restaurantes e tudo de bom que a região tem a oferecer, que tal um passeio exclusivo para você e sua familia? Alugue um taxi boat e deixe-o a disposição, entre em contato com Mestre Faria, 25 anos navegando na região, alugue por 8h, capacidade para 9 pessoas (3 crianças até 5 anos), é mais barato do que você imagina. Conheça a Ilha da Vigia, Jaguanum, Saco da Pumbeba, divirta-se. Também pode agendar sua pescaria (ideal ser no máximo 6 pessoas). 2198652-9177

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  7. Muito bom o artigo, fala bem da ilha e deu bastante vontade de conhecer.
    Será que numa segunda feira tem agum movimento a ilha ou ela fica completamente deserta?
    E essa trilha que vai ate a praia do Leste é grande?

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    1. João, esta é apenas a ponta do Ice Berge, a ilha do martins é uma das menores da região, para um passeio completo com as melhores praias paradas nos restaurantes e tudo de bom que a região tem a oferecer, que tal um passeio exclusivo para você e sua familia? Alugue um taxi boat e deixe-o a disposição, entre em contato com Mestre Faria, 25 anos navegando na região, alugue por 8h, capacidade para 9 pessoas (3 crianças até 5 anos), é mais barato do que você imagina. Conheça a Ilha da Vigia, Jaguanum, Saco da Pumbeba, divirta-se. Também pode agendar sua pescaria (ideal ser no máximo 6 pessoas). 2198652-9177

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  8. Este comentário foi removido pelo autor.

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  9. Esta é apenas a ponta do Iceberg, a ilha do martins é uma das menores da região, para um passeio completo com as melhores praias paradas nos restaurantes e tudo de bom que a região tem a oferecer, que tal um passeio exclusivo para você e sua familia? Alugue um taxi boat e deixe-o a disposição, entre em contato com Mestre Faria, 25 anos navegando na região, alugue por 8h, capacidade para 9 pessoas (3 crianças até 5 anos), é mais barato do que você imagina. Conheça a Ilha da Vigia, Jaguanum, Saco da Pumbeba, divirta-se. Também pode agendar sua pescaria (ideal ser no máximo 6 pessoas). 2198652-9177

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  10. Amigo, muito bem explanado,senti mais vontade de conhecer essa ilha!
    Agradeço as informações.

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  11. Amigo, muito bem explanado,senti mais vontade de conhecer essa ilha!
    Agradeço as informações.

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  12. Eu fui conhecer a ilha com minha família e gostamos tanto que alugamos uma casa anual. O lugar é lindo, mesmo não tendo luz, só gerador por algumas horas, mesmo assim a natureza faz compensar.

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  13. Gostaria de saber se tem estacionamento para carros na Ilha da Madeira? E que horas sai o primeiro barco para Ilha dos Martins?
    Obrigada!

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  14. Estivemos ontem lá ! Que lugar mágico ! Estou apaixonada ! Este barqueiro (sr. Pedro) foi quem nos levou e nos trouxe. Que figura !

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  16. Oi, tudo bem. Então eu ia a Ilha do Martins a muitos anos em todos os feriados. Fiquei feliz em saber que ela ainda existe. A praia do difunto como era conhecida é linda e maravilhosa não sei se a chamam por outro nome. O cachorro sem nome deve estar velhinho pq ele já existia a 15 anos atrás RS. Eu amo essa ilha, pense em uma infância feliz aonde eu corria todo a extensão. Aonde vi uma baleia ( provavelmente em época de migração sim uma passou por lá). Quase me afoguei na praia do leste por causa dela. É incrível como as lembranças voltam. Eu tomava café da manhã sentada em uma pedra que pode se avistar logo que entra na ilha pela praia do funil acordava as 5h dá manhã pra ver o sol nascer ali e passava o dia brincando nessas águas sem me preocupar com nada.

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  17. cara muito bommm cara.. vou amanhã lá depois atualizo algumas informações como preço do taxi boat.. não deve passar de 15 reais.. indo e 15 voltando.. enfim.. valeu pelo blog

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