Páginas

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Praias Selvagens de Barra de Guaratiba - O Rio de Janeiro como você nunca viu

Acho que não existe uma forma delicada de introduzir esse assunto, então serei bem direto: EU NÃO SUPORTO A CIDADE DO RIO DE JANEIRO!

Não dá pra ter outro sentimento, a não ser repugnância e nojo, de uma cidade tão imunda e com um povo tão mal-educado quanto o carioca médio. Qualquer um com no mínimo dois neurônios é capaz de perceber que o Rio de Janeiro é uma grande enganação: Desigualdade social para todo lado, com favelas e bairros ditos nobres tão semelhantes entre si que você mal percebe a diferença. 
O povo carioca em um típico dia de praia

Isso sem contar o ufanismo bobo por parte de alguns moradores que REALMENTE acreditam viver numa cidade maravilhosa, apesar dos tristes números da violência. Esses mesmos cidadãos que se orgulham tanto de "morar onde os outros passam as férias" geralmente esquecem que, mesmo morando em frente à praia, na verdade moram a uns 500 metros da favela mais próxima.

Engraçado é perceber que os que mais caem na falácia de "amar a cidade" são justamente aqueles que moram longe de tudo: em bairros sem alma como a Barra da Tijuca, ou nas tenebrosas quebradas da Zona Norte, ou nos rincões paupérrimos de morros verdes e favelas planas da Zona Oeste, ou pior ainda, na Baixada Fluminense - onde moradores de municípios vizinhos como Duque de Caxias e Belford Roxo juram de pé junto que são cariocas. Todos esses orgulham-se do clima praiano da cidade, mas só vão às praias uma vez ao ano e olhe lá - por conta do péssimo planejamento urbano, demoram em média 1h30 no trajeto de suas casas até a orla mais próxima. Curiosamente, o mesmo tempo que um paulistano demora pra chegar em Santos...

E falando em praias... Eu morro de rir quando ouço pesquisas dizendo que, pela enésima vez, Copacabana foi eleita "a praia mais bonita do mundo". Nadar nas praias da zona sul do Rio de Janeiro é literalmente nadar no meio da bosta. Não é à toa que os "cariocas apaixonados pelo Rio", aos finais de semana e feriados prolongados, encaram engarrafamentos gigantes só para ir às praias do interior do estado, onde o cocô ainda não chegou - mas a violência sim.

Ufa, vamos parar por aqui. Esse é um assunto extenso, que me deixa com os nervos à flor da pele. Eu realmente cheguei a pensar que no Rio de Janeiro, nada se salvava - era o caso de explodir tudo e começar do zero. Até o dia que descobri que mesmo em meio ao caos dessa metrópole, ainda existe um lugar quase intocado e desconhecido pela turba ensandecida, onde ainda é possível respirar o ar puro e curtir um mar incrivelmente limpo, sem ter que dividir espaço com aglomerações, quiosques ou ambulantes, mas apenas com o verde da natureza. A esse lugar (ou seria lugares?), chamamos de Praias Selvagens de Barra de Guaratiba:

Praia do Perigoso, Praia do Meio, Praia Funda e Praia do Inferno.

Ao tomar conhecimento da existência desse lugar, logo avisei ao meu amigo Pedro para que fóssemos conhecer. Chegar lá só é possível através de uma trilha de dificuldade média, mas devido à sua grande extensão, parece ser mais difícil do que é, exigindo um bom preparo físico dos desbravadores.
Não há muitos mistérios em se chegar ao bairro litorâneo de Barra de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio, onde inicia-se a trilha. Pegamos o ônibus da linha 867 (R$2,75) que liga Campo Grande à Barra de Guaratiba, bairros distantes 30 km um do outro, e em pouco mais de uma hora chegávamos ao local.
Como dá pra perceber, apesar de ser afastada das principais atrações turísticas da cidade, Barra de Guaratiba ainda é uma típica praia carioca. Se ainda restam dúvidas, basta atentar-se à língua negra de esgoto in natura indo para o mar. A foto não consegue capturar, mas também há uma favela logo atrás, e a música ruim em alto volume também estava presente.
Felizmente, não ficaríamos por ali. Desconhecida até mesmo pelos moradores do bairro de Barra de Guaratiba, a trilha que nos levaria até às suas praias selvagens começa no alto de um morro, e é para lá que íamos.

Vamos subindo e nos afastando cada vez mais do burburinho. Uma escadaria íngreme aparece na nossa frente, e subi-la exigiu tanto esforço que já a elegíamos de antemão a parte mais difícil do trajeto.
Lá do alto, uma visão privilegiada da Restinga do Marambaia - área de acesso restrito, com uma estreita faixa de areia que atravessa um mar de azul cristalino e vegetação exuberante. Pena só podermos ver de longe, mas é graças à essa restrição de acesso que o lugar se mantém preservado. Talvez seja melhor assim.

E seguindo por um caminho de casas humildes com vista para o mar, abruptamente chegamos ao fim da linha. A partir dali, somente a Mata Atlântica como companhia nos próximos quilômetros através de uma trilha larga e bem ventilada. Seria a primeira trilha do percurso, que nos levaria até a bifurcação da Praia do Perigoso e da Pedra da Tartaruga.

Apesar do sol forte que já despontava nas primeiras horas da manhã, fomos seguindo a trilha num ritmo bem rápido, e em aproximadamente quarenta minutos já nos aproximávamos da primeira parada.



Após alguns trechos de mata entreaberta, com fontes de água, árvores frutíferas, riachos e pedras, avistávamos a imponente Pedra da Tartaruga, um lindo mirante natural que realmente lembra as formas do referido quelônio.



A escultura da natureza parece estar ao alcance das mãos, entretanto, ainda é necessário um pouco mais de caminhada para se chegar até uma bifurcação onde uma placa rústica aponta para a direita: "Praia do Perigoso".

Seguindo um pouco mais à frente, agora sim, chegávamos a tríplice bifurcação: À esquerda, a Praia do Perigoso, à direita, a Praia de Búzios (que não possui faixa de areia, apenas pedras), e subindo adiante, um caminho que nos levaria para cabeça da tartaruga.

Mesmo ensopados de suor e desejosos por um mergulho nas águas geladas da Praia do Perigoso, aproveitamos o sangue quente para empreender a subida até a Pedra da Tartaruga, que nem é tão alta assim (98 metros), mas possui um caminho extremamente quente e abafado que quase nos fez passar mal.

Mas basta apenas um pouco de paciência e pronto: Lá você está, bem no alto, com uma visão que compensa qualquer esforço.
Praia do Perigo, do Meio e Funda, vistas do alto da Pedra da Tartaruga


A trilha está lááááá em baixo

Ver toda aquela bela paisagem lá de cima foi emocionante. Mas nossa jornada mal havia começado! Descemos novamente a pequena trilha abafada e, após uma rápida olhada na Praia de Búzios, que não tem lá muita graça, seguimos o caminho da Praia do Perigoso.
O caminho até o Perigoso é bem mais fresco e praticamente só descida. Já vamos ouvindo o barulho das ondas e enfim, pisamos na areia fofa da praia. Que belezinha! A Praia do Perigoso é pequena, tem no máximo uns 200 metros de extensão, e seu nome pareceu-nos uma grande ironia...

Mesmo com algumas ondas, o único perigo da Praia do Perigoso é você querer ficar por lá mesmo e não voltar mais pra casa. A julgar por um pessoal que a gente viu acampado nas imediações, cheio de tralhas, acho que o pensamento é bem por aí, sim.



Ao fundo, o "casco" da Tartaruga

Mergulho dado, corpos mais refrescados. Era o que precisávamos para seguir em frente, rumo à mais uma trilha - dessa vez mais sinuosa e com alguns pontos ligeiramente mais fechados, por conta do mato alto -, que nos levaria até a Praia do Meio.


Passada a fase do caminho de mato, chega-se à uma descida bem íngreme. Ali, todo o cuidado é pouco, então fique atento para não escorregar e cair ladeira abaixo. O declive só termina mesmo quando já se está chegando bem próximo da praia. O último desafio então é fazer um pequeno rapel em uma pedra de uns 4 metros de altura, que separam a trilha no alto do morro da faixa de areia. Dá pra descer tranquilo, mas se ficar com medo, há por ali uma corda bem firme que auxilia os mais temerosos.
Agora sim, um praião de verdade! Com uma impressionante extensão de 2,5 km, a Praia do Meio é, sem dúvidas, uma das mais belas paisagens que eu já tive a oportunidade de contemplar. Suas águas são bem mais violentas do que a praia anterior, e sua areia só é macia fora d'água - dentro do mar, a areia se torna um pouco mais grossa, mas nada que impeça um bom mergulho.

E lá fomos nós seguindo adiante, até a Praia Funda. Se só o caminho atravessando toda a faixa de areia da Praia do Meio já cansava, mal imaginávamos o que viria pela frente...
Adeus, Praia do Meio!

Sabe quando eu falei que o caminho toda era por trilha? Esqueça! Agora o caminho até a Praia Funda era sobre as pedras. Um costão rochoso enorme aparecia em nossa frente, e caso desejássemos seguir até à outra praia, precisaríamos encará-lo!

Vista da Praia do Meio de cima das pedras

Não vou mentir, o caminho era bem complicado. Eu preferia muito mais andar no meio do mato fechado do que em pedras escorregadias e molhadas, cujas águas da praia batiam forte - tão perto, que se escorregássemos seríamos engolidos pela fúria do mar.
Pedro chegou a machucar levemente a mão e eu quase escorreguei uma ou duas vezes. Mas o caminho dessa vez foi rápido e já avistávamos a nossa próxima parada, a Praia Funda.


E essa são as boas-vindas da Praia Funda para quem se esforça a chegar até ela

Mal pisamos na areia e chegamos a um veredito: Até agora, a Praia Funda era a mais bonita de todas! Uma linda praia, enorme - parecia ser maior que a do Meio - e bem mais violenta. Os bancos de areia formados eram tão altos que até nos permitiam usá-los como bancos para sentar e apreciar a paisagem.
Mas nossa tranquilidade durou pouco. De repente, começamos a ser atacados por pulgas-do-mar, que talvez por não estarem acostumadas a ver gente todo dia por ali, começaram a nos picar ferozmente. Parecíamos dançarinos, pulando e correndo de insetos tão minúsculos que eram quase invisíveis. Apesar da praia ser bonita, ela honrava sua característica de selvagem, e infelizmente tivemos que sair rapidamente dela - aproveitando para molhar os pés na água para aliviar as picadas.

Nos fundos da praia, havia o que parecia uma entrada para o interior da mata. E como aparentemente era o único caminho mesmo, foi por ali que entramos.

Aquela trilha nos levaria até a última praia, a Praia do Inferno. Iríamos descobrir o porquê desse nome em breve. Antes, fomos seguindo pelo labirinto entre a vegetação, que lembrava uma espécie de mangue seco. Em determinado momento vimos uma placa que prometia uma fonte por perto, e como a sede já aumentava e nossas reserva de água evaporaram, acreditamos que iríamos ver um bom reservatório pela frente.
No meio daquele caminho cada vez mais esquisito, vimos até uma espécie de barraco construído, com alguém realmente morando dentro. Felizmente os órgãos responsáveis tomaram algumas providências depois, acabando com o que poderia tornar-se uma favela no futuro.

Sem muito esforço (pelo menos da Praia Funda até ali), chegávamos são, salvos e demasiadamente exaustos na Praia do Inferno.

A tal fonte de água... parada. Preferimos não arriscar.

Apesar do cansaço extremo que tomava conta de nós - até o momento, havíamos andando pelo menos umas 4 horas entre subidas e descidas de mato e pedra -, ficamos satisfeitos em chegar até a Praia do Inferno. Um mergulho de comemoração foi imprescindível.
Diz a lenda que um dos frequentadores mais famosos dessa praia era o político Leonel Brizola, que costumava aproveitar a distância e a privacidade para se bronzear peladão deitado na areia. Imagine só que desagradável, você fazer essa trilha para dar de cara com as bolas da democracias trabalhista, tomando um solzinho. É verdadeiramente a visão do inferno!

Mas na verdade há uma maldição nessa praia... repare a foto abaixo:
Na areia da praia, há uma pedra isolada de aproximadamente uns 3 metros de altura, facilmente escalável. Pedro estava lá em cima, buscando um bom ângulo para sua foto, e eu havia acabado de dar meu mergulho. Logo ali atrás da cabeça do Pedro, há uma pedra menor, onde havíamos colocado nossas mochilas em cima, para protegê-las da ação do mar.

O que não imaginávamos é que o Brizola, provavelmente chateado pela profanação de seu espaço, resolveu mandar um mini tsunami justamente naquela hora. No EXATO MOMENTO em que essa foto foi tirada, um ondão que alcançava sua força máxima molhou todas as nossas coisas, arrastando mochilas, roupas e chinelos para a praia.

Foi necessária destreza para conseguir recuperar tudo antes da correnteza. Pedro, que estava em cima da pedra alta, só conseguia gritar desespero, e eu mais desesperado ainda ia catando nossos pertences.

Pertences molhados, mas salvos, certo?

Subi então na rocha para fazer um lanche com o Pedro, e ele resolveu ter a péssima ideia de SACODIR A AREIA PRESA NA MOCHILA. Como as praias anteriores eram agitadas, ele havia, logo no início da caminhada, retirado a aliança do dedo e deixado na parte da frente da mochila, para não perdê-la no mar caso fosse nadar... acontece que nesse processo de limpar a mochila, só deu tempo de ouvir um suave tilintar metálico e logo depois um silêncio brutal.

Previ imediatamente: "Pedro, tua aliança caiu".

Pedro parecia não conseguir processar a informação. Demorou um pouco para cair a ficha. Revirou tudo, farejou toda a extensão da pedra e logo após, descemos para procurar nos arredores... e nada.

Desnecessário dizer que a noiva dele ficou muito chateada.
Lanchando em cima de pedra: repare na cara de animação do Pedro

"Tudo estava indo tão bem...". Pois é, quem mandou zoar o Brizola! Agora era hora de voltar pra casa, cansados, com sede e, no caso do Pedro, um pouco mais pobre, já que teria de comprar outra aliança.

Na volta, fomos seguindo por uma trilha diferente da qual havíamos vindo, que partia direto do caminho esquisito aos fundos da Praia Funda. A boa notícia é que era uma trilha de verdade, sem pedras pontiguadas. A má é que parecia que só subíamos, subíamos, sem chegar a lugar algum.


Após muito tempo andando sem pausa, chegamos no topo. Tínhamos aquela visão linda de fim de tarde da Restinga do Marambaia. Melhor ainda era saber que dali em diante era só descida.

Quanto mais íamos descendo, mais a trilha ficava mágica. Houve alguns momentos em que nos sentimos dentro de um filme.


Os típicos sons urbanos de pessoas e carros iam ficando cada vez mais altos conforme descíamos a ladeira, chegando, enfim, em nosso ponto de partida, na praia de Barra de Guaratiba.

Em algum lugar do inferno Brizola estava rindo de nossa cara. Entretanto, conseguimos, a muito custo, vencer aquela barreira natural e voltarmos felizes para casa. 

O Rio de Janeiro, pra mim, continua sendo uma cidade terrível, e até o político do além vai ter de concordar comigo dessa vez. Mas uma coisa é certa: Em uma pequena parte de território da cidade, há um lugar perfeito, intocado, onde a violência e a favelização ainda não chegaram, e até os homens mais poderosos devem respeitar: não importa se despindo-se, dando seu sangue e suor, ou até mesmo oferecendo involuntariamente o pouco ouro que carregam consigo.

As praias selvagens de Barra de Guaratiba são exatamente isso: Selvagens. Mas sabem recompensar muito bem a cada um daqueles que aceitam o desafio de conhecer sua bela paisagem natural, um presente dos céus que compensam a imundície de todo resto da cidade.