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sábado, 2 de junho de 2012

Pedalando do Rio a Ubatuba - Parte III (Final)

E no terceiro dia...
Como imaginar que após dois dias de viagem, 200km pedalados, ser expulso de dois lugares diferentes e depender das cachoeiras e quedas d'água no meio do caminho para matar a sede, eu poderia chegar são e salvo ao meu destino, PRAIA DA FAZENDA, em Ubatuba, após um belíssimo jantar e uma noite muito bem dormida em uma cama quentinha e confortável?

Certas coisas acontecem de uma maneira tão incrível na nossa vida que nem dá para pensar muito a respeito. Basta-nos agradecer a Deus pela oportunidade e seguir em frente, admirando a paisagem. Foi o que fiz.

Acordei bem cedo e tomei café com a Dona Laura, minha simpática anfitriã. Ainda cheguei a acompanhá-la pela trilha que leva de sua casa até o Centro Cultural do Parque, onde ela trabalha. O caminho, que na noite anterior era apenas um breu, agora pela manhã mostrava-se incrivelmente lindo.
Foi muito bom pedalar por ali, mas era hora de ir à praia e curtir com calma a linda praia deserta, com seus quase 5km de extensão, que havia me feito sair do Rio só para conhecê-la.
Reconhece esta foto?
A praia honrava tudo o que já escreveram na internet sobre ela. É realmente muito bonita!
Com uma areia bem compacta, ótima para pedalar, cruzei-a de uma ponta a outra, lentamente, sentindo a brisa.

A sensação de liberdade era indescritível. Somente eu e a bicicleta na praia.
 A cada pedalada, a praia ia ficando mais charmosa, com um ou outro detalhe que fazia toda a diferença.
  De tão grande, a praia da Fazenda parece infinita.
E a beleza da praia realmente era infinita. Infelizmente, meu tempo não era. Já estava ficando tarde e eu ainda precisava voltar para Paraty, mas até a bicicleta parecia cansada.


Mas como querer sair de um paraíso assim? Eu precisava mergulhar, esfriar a cabeça e lavar a alma de todos os problemas que circundaram a viagem nos dois dias anteriores. Foi o que fiz!
 Após o mergulho, a triste despedida.
Era hora de deixar aquela praia e seguir em frente, de volta a Paraty, para encontrar minha esposa e voltarmos depois para casa, de ônibus.
Ainda tive tempo para ir ao Centro Cultural encontrar a Dona Laura e agradecê-la por todo o carinho. É algo que jamais esquecerei.
As belas exposições eram um convite para ficar mais tempo lá, mas não dava. Certamente voltarei lá.
Passando pela guarita, o vigilante (outro, não o do dia anterior) me chamou. Queria saber o que havia acontecido. Expliquei em detalhes a proibição do outro vigilante em não me deixar passar a noite lá. Ele, ouvindo-me atenciosamente, garantiu-me que reclamaria com o vigilante. "Aqui é um lugar público, moço, a gente não pode proibir de ficar aqui, pelo menos na guarita com a gente. Quer dizer que se você estivesse sendo perseguido ou ameaçado, ele te devolveria pra estrada? Isso tá errado".

Capitão Óbvio ataca novamente. Espero que a reclamação tenha surtido efeito. 
Na saída do Parque, dei aquela última olhada para o horizonte que seguia pela estradinha de terra. Havia sido um prazer estar ali.
Pela estrada a frente, tudo muito tranquilo. A volta parecia ser bem mais tranquila, apesar da velocidade alta de muitos motoristas.
Bem na divisa de estados, surgia a Cachoeira da Escada. Não resisti a um mergulho e a uma foto da sereia (?) que fica por ali.
 
 O caminho, tal como na ida, passava por diversas comunidades quilombolas paratienses, como o Quilombo do Campinho, lugar onde nasceu Dona Laura.
Quase chegando em Paraty, eu ia me animando. Estava prestes a concluir a viagem dos meus sonhos, que eu tanto havia planejado. A poucos quilômetros do perímetro urbano de Paraty, uma surpresa.

Um odor forte exalava no ar. Pouco a frente, a explicação: Um lixão, com sua característica montanha de lixo e catadores mal-tratados pela atividade que ali realizavam. Tive vontade de parar, conversar, mas não consegui.

Ali estava eu, indo para Paraty, na condição de turista/viajante, feliz da vida. E de repente, vejo pessoas, provavelmente nativas da cidade, oriundas de quilombos, remexendo no fétido material em troca de ítens que pudessem vender em troca de alguns centavos - talvez até encontrar algo para comer. Sem equipamentos de proteção ou qualquer condição que pudesse dignificar aquele trabalho. 
Já na entrada de Paraty, não havia mais felicidade. Como ficar contente em hospedar-me numa bela cidade, em frente à praia e com comida farta, enquanto alguns de seus próprios cidadãos precisavam revirar os resíduos dos turistas para sobreviver? Uma desiguldade gritante que Paraty conseguiu esconder de mim por muito tempo.

E pensar que, naquela semana, havia um evento sobre sustentabilidade na cidade.

Bienvenido a Paraty. Bienvenido ao mundo real?

EPÍLOGO

- Cheguei bem na cidade, encontrei minha esposa e passamos uns dois dias em um Hostel. A volta foi tranquila, com a bicicleta dobrada em um ônibus;

- Mandei um e-mail para a empresa de segurança responsável pela vigilância da Vila Residencial da Praia Brava, bem como a Secretaria de Turismo de Angra e a própria Eletronuclear, relatando o incidente da minha expulsão do local. Responderam-me com um pedido de desculpas, dizendo ainda que tomariam providências quanto ao ocorrido. Espero que sim. Sem mágoa.

- Passar pelo lixão acabou me fazendo interessar pelo assunto. Tive a oportunidade de conhecer o Henrique Rangel, do blog História das Ruas, e fomos juntos ao maior aterro sanitário da América Latina, o popular lixão de Gramacho. Nossa ida até lá rendeu um belo post com fotos bem realistas. Em breve escreverei minha visão sobre o tema, aqui mesmo no blog.

Obrigado por me acompanharem até aqui.