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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Pedal no Vale do Café (RJ) - Uma saga em dois atos

A região do Vale do Café fluminense chegou a ser a região mais importante do Brasil há algumas décadas, pois era ali onde a riqueza circulava através dos barões e das fazendas cafeeiras. 

Conhecer alguns municípios como Vassouras, Miguel Pereira ou Paty do Alferes é uma experiência indescritível. A história parece ter vida nesses lugares, através do legado histórico ainda preservado.



Minha primeira tentativa de fazer esse roteiro foi ainda em Setembro de 2011, com exatos 100km pedalados da minha casa até o município de Vassouras, passando por Seropédica, Japeri, Paracambi, Mendes e Engenheiro Paulo de Frontin.




Não foi uma viagem fácil, haja vista as serras existentes pelo caminho. A maior delas chega a medir 557m, em um aclive praticamente ininterrupto de quase 10km. Nessas horas, não há segredo a não ser ter humildade e descer da bicicleta para subir carregando.


Logo ao sair de Seropédica pela Dutra, uma experiência interessante acontece: Passar por um pedágio livremente, enquanto uma fila de carros buzinando se forma ao lado, para pagar pela passagem. É engraçado.

Após um viaduto, chega-se à Estrada Miguel Pereira, que ao contrário do que o nome parece indicar, leva-nos de Seropédica ao município de Japeri.

O caminho é um retão de 8km, que custa a passar graças a paisagem repetitiva, o pouco movimento, a ausência de sombras e o movimento repetitivo do pedalar sobre uma superfície plana.

No final da estrada, ao cruzar uma ponte, chegamos ao bairro de Nova Belém, já em Japeri - que, sinceramente, não é o melhor lugar em que já estive. O local merece urgentemente uma melhor urbanização e serviços de saneamento básico, do contrário, continuará sendo um pequeno município da Baixada Fluminense com um péssimo IDH, que lembra muito a Índia, aliás. Só pra vocês terem ideia, mesmo cruzando a cidade e passando pela estação de trem, não consegui identificar um "centro da cidade". O lugar é feio mesmo, me desculpem.

Mas Japeri passa rápido, e logo entro na Estrada Paracambi-Japeri. A placa de divisa dos municípios aparece rápido, mas o perímetro urbano demora. Passam-se duas estações de trem pelo caminho e logo Paracambi - que é bem mais arrumadinha que Japeri - surge, com seus atrativos ecoturísticos.




A primeira serra aparece aí, já com toda sua dificuldade. Com algumas paradas pelo caminho, logo alcanço a aprazível e fresquinha Mendes. Paro na casa de uma senhora e peço água, e sou gentilmente atendido. As pessoas simpatizam com os cicloviajantes.

Seguindo mais a frente, chego em Engenheiro Paulo de Frontin. Na verdade, apenas passo pelo Pórtico de entrada. Cheguei a entrar na delegacia para pegar mais aǵua - que evaporou junto comigo na desgastante subida e seguir em frente.

Mais uma subida, um pouco menos íngreme desta vez, e assim, pouco a pouco fui aproximando-me do destino final: Vassouras.

Cheguei lá ainda cedo, por volta das 16h. A bicicleta e o capacete costumam chamar bastante a atenção das crianças, que logo me param perguntando: "Tem corrida na cidade?"

Fiquei na casa de um tio de minha esposa, que gentilmente me acolheu, com direito a lanchinho e tudo. No outro dia, levantei bem cedo e fui tentar chegar a Paty do Alferes.

"Tentar", sim. Pois quem disse que eu cheguei? Não deu. Rodei pela cidade toda de Vassouras em busca da tal saída para Paty do Alferes, e não encontrei. Horas da manhã perdidas, e um cansaço mental muito grande. Desisti.

Aliás, é nessas horas que a gente vê como uma bicicleta dobrável pode ser útil. Dobrei-a e peguei um ônibus para Paracambi, e de lá um trem para o Rio. Talvez não fosse realmente a hora de conhecer a terra do tomate, como é conhecida Paty do Alferes.

Os meses passaram e a minha vontade não. Logo no segundo dia do ano de 2012, resolvi arrumar as malas, ou melhor, a mochila, e sair de Seropédica (destino até onde o ônibus do trabalho poderia me deixar) e de lá partir para Miguel Pereira e Paty.


Segui o já conhecido caminho de Japeri, mas ao invés de virar para Paracambi, segui em frente e logo cruzei o limite municipal com Miguel Pereira. O caminho é extenso, com belas paisagens rurais que permeiam os distritos de Conrado e Arcádia. Passei também pela pequena Capela Nossa Senhora de Fátima, que apesar de estar na mesma estrada, pertence ao município de Engenheiro Paulo de Frontin graças a uma pequena "invasão" no mapa.

Ainda nos distritos do interior de Miguel Pereira, parei em uma casa que estava cheia de crianças e pedi água. O rapazinho pegou minha garrafinha e logo voltou, com uma água tão gelada que até podia se sentir os pedacinhos de gelo. Agradeci, contando a ele e aos seus colegas para onde iria. "Paty do Alferes?? É muito longe, você não vai conseguir! A serra é muito grande!". Agora tinha virada questão de honra!

Esse caminho foi muito parecido com o que fiz pra Vassouras, com a diferença que peguei "o outro lado da serra", ainda pior, com exatos 936m de altura.


Carreguei muito mais a bicicleta do que quando fui à Vassouras. A sorte é que pelo caminho existem muitas quedas d'água, dispostas a matar a sede e amenizar o calor do viajante. Aproveitei para dar um pulinho na cachoeira de Santa Branca.




Aos poucos fui vencendo a serra e... cheguei vivo.


Por volta das 15h, eu atravessava a bela Miguel Pereira, que pareceu-me muito bem urbanizada e moderna.

Pórtico de entrada do município de Miguel Pereira

Lago Javary, cartão-postal da cidade

Igreja da Matriz

Antes do anoitecer alcancei Paty do Alferes, muito menor do que Miguel Pereira, mas tão bem cuidada quanto. Ali, logo procurei um lugar pra ficar, e fui muito bem recebido na Pousada dos Emaús, uma hospedaria simples, anexa a um orfanato, onde toda renda arrecadada vai justamente para a manutenção deste.


Trataram-me muitíssimo bem por lá, e ainda disponibilizaram um quarto com cama de casal para o meu melhor conforto, com direito a banho quente e cafézinho.

O cansaço era grande e confesso que logo que deitei na cama, adormeci. Não pude ver a noite estrelada de Paty - da qual já ouvi falar muito bem -, mas o amanhecer foi tranquilo, com tempo de passear a pé pela cidade.

A volta foi bem mais tranquila, pois tudo que eu havia subido no outro dia, eu desci. Era só questão de equilibrar-me na bicicleta e controlar o freio, diante da belíssima paisagem do Parque Natural Municipal da Rocha Negra.

Fiz questão de parar na mesma casa das crianças que eu havia pedido água no dia anterior. "Lembram de mim?", perguntei. E aí então mostrei as fotos acima, comprovando a minha conquista. "Nooooooossa", foi o coro geral. "Ele conseguiu".

Depois dessa, até ganhei outra garrafinha cheia de água. :)

6 comentários:

  1. Cara, essa serra de Miguel Pereira é show! Meus parabéns! Estive lá nos idos de 2004! Christoffer - SP

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  2. Ah, a saída de Miguel Pereira para Vassouras não é tão difícil, mas também é uma serrinha boa...

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  3. Wendell! Estive mochilando por essa região este final de semana e seguindo o seu "conselho" me hospedei na Pousada Emaús, muito obrigado pela dica! Inclusive todos lá falaram de você e riam e se divertiam falando da sua passagem por lá, me senti como se conhecesse um pouco de um alguem que nunca vi. Muito obrigado, mesmo!

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    1. Poxa, Felipe, assim você me mata de emoção! haha

      Que bom saber que minha dica foi útil. Espero que sua estadia lá nos Emaús tenha sido tão boa quanto a minha, todos lá são uns amores mesmo.

      Grande abraço, boas mochiladas!

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  4. Pedalo há muito tempo mas só agora decidi me aventurar pelas regiões daqui (moro na baixada, pelo ramal Japeri) com a bike. Planejo subir num bate-volta pra vassouras no próximo sábado é seu relato, mesmo que "antigo" já me adiantou um bocado o que devo encontrar pela frente. Depois pretendo fazer o mesmo pra Miguel Pereira e Paty. Obrigado por compartilhar a experiência Wendell. \o
    Assim que possível compartilharei também, no 2pernas2pedais.blogspot.com.br, e vou linkar seu registro no meu como exemplo.
    Mais uma vez, Obrigado!

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