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sexta-feira, 25 de maio de 2012

Pedalando do Rio a Ubatuba - Parte I

Desde que comecei a ler algumas experiências de outros cicloviajantes, aprendi que quando você alcança os 100km pedalados em um só dia sem muito cansaço, então já pode se considerar apto a pedalar maiores distâncias, podendo optar por organizar-se a curto e médio prazo para alimentação, vestuário, pernoite, etc.

De um ano e meio pra cá - o tempo que, de fato, venho pedalando com regularidade - consegui chegar a um nível de razoável conforto ao encarar distâncias com essa quilometragem aproximada. Logo, achei que já estava na hora de realizar um antigo sonho. Ou melhor, dois: Cruzar a divisa do Rio de Janeiro com São Paulo e conhecer uma praia paulista.

Divisa de Estados - Rio de Janeiro x São Paulo
Muita coisa aconteceu para essa foto ser possível
Mas sentir-se preparado é apenas parte do processo. Quando você já está certo do que vai fazer, vem aquela parte da viagem que eu particularmente adoro: o planejamento. Quanto de comida levar? Acampar ou ficar em hostel? Será que a mochila não está muito pesada? E o pneu, não está na hora de trocar? A bicicleta está lubrificada?

É nessas horas que tudo deve ser visto e revisto, e saiba que não importa o quanto você se planejar, imprevistos VÃO acontecer. Apenas esteja pronto para eles também.

Com todos esses detalhes em mente, eu já havia acertado algumas coisas e decidido a data da viagem. Aproveitaria a minha escala de trabalho flexível (ao contrário do que parece, minha vida não é só pedalar) e tiraria 5 dias de folga, dos quais apenas três dias de fato separados para a viagem, que seria assim:
  • 1º dia: Do Rio até Mangaratiba (com o ônibus do trabalho) e de lá acampar na Vila Histórica de Mambucaba, já em Angra dos Reis. Aproximadamente 110km.
  • 2º dia: Sair de Mambucaba e cruzar Paraty inteira, até atravessar a divisa com Ubatuba e acampar na Praia da Fazenda. Aproximadamente 90km.
  • 3º dia: Voltar o caminho para chegar em Paraty antes das 15h, para encontrar minha esposa, que iria de ônibus. Aproximadamente 40km.
Assim, no dia 08 de maio deste ano eu já estava com tudo pronto. Suprimentos? Confere. Barraca? Confere. Kit emergência para a bicicleta? Evidente. Câmera fotográfica? Por supuesto

Como eu trabalharia de madrugada naquele dia, levei a bicicleta já dobrada na bolsa para o trabalho, juntamente com meu mochilão. Sim, isso mesmo: Eu pedalaria a partir da manhã do dia 09, após ter virado a noite no trabalho. 

Tenho a sorte de trabalhar em uma empresa que disponibiliza vários ônibus para alguns pontos da cidade do Rio de Janeiro e municípios vizinhos para os seus funcionários. Deste modo, eu pegaria uma carona com um ônibus diferente do meu habitual, indo até o distrito de Muriqui, em Mangaratiba, o que me pouparia alguns quilômetros

Lembra de quando eu disse que algo sempre vai dar errado, não importa o quão organizado você seja? Então. O ônibus atrasou um pouco, e acabei chegando uma hora atrasado em Muriqui. Eram 10h30 e eu ainda estava desdobrando a bicicleta em frente a um posto de gasolina. Lugar curioso para se parar com uma bicicleta, aliás. Chamei tanto a atenção que um frentista veio em minha direção, não para reclamar, mas sim para saber mais daquela minúscula bicicleta que dobrava.

Somente por volta das 11h comecei efetivamente a pedalar, aproveitando uma descida de aproximadamente 8km até o distrito de Praia Grande, já retratado aqui no blog. Mal ia descendo e já percebi algo de muito estranho na eficiência da bicicleta: Era a câmara, comprada no dia anterior, que acabava de furar.

Vou confessar um segredo: Sou muito lerdo para efetuar reparos de bicicleta. Eficiente, mas lento. Somente por volta do 12h a bicicleta estava pronta para voltar a estrada, e eu cada vez acreditava menos que iria conseguir alcançar os 110km pedalados naquele dia. Um erro de - vejam só! - planejamento da minha parte, afinal, estávamos falando de uma viagem pedalada majoritariamente pela Rio-Santos. 

Sempre antes de viajar, imprimo um mapa do trajeto pelo Google Maps e por meio do próprio link, faço o cálculo da altimetria, através do site GPS Visualizer. Ela não era muito animadora:
Apesar das medidas serem modestas para os meus padrões, repare que trechos 100% planos seriam praticamente inexistentes nessa viagem. Todo meu caminho seria sobre uma intensa montanha-russa, com seus altos e baixos. Bem que Roberto Carlos já havia avisado sobre as tais curvas da estrada de Santos...

Mas se sempre alguma coisa sai errada na viagem, acredite, algumas outras coisas darão incrivelmente certo, sem que você faça esforço algum. Coincidência, sorte ou destino, não importa. Tá vendo aquela terceira de elevação do gráfico, da esquerda para a direita, marcando aproximadamente 100m? Ali localiza-se o segundo túnel de Mangaratiba, que liga a Praia do Sahy a Praia do Saco. Eu estava exatamente ali, não no topo, mas próximo a marca dos 100m, quando de repente um pequeno furgão com a logo de uma empresa locadora de veículos vai diminuindo a velocidade e se aproxima de mim.

Dentro do veículo, uma voz grita pra mim: "Rapaz, me ajuda! Eu sou lá de São Gonçalo, estou indo para o estaleiro de Angra mas não sei como chegar, é a primeira vez que venho para esses lados, como é que eu faço pra chegar lá??"

Ora, meus amigos, eu não faço fazia a menor ideia de onde era esse tal estaleiro, maaaas eu tinha um mapa! Perguntei então ao motorista se ele não gostaria de me dar uma carona até lá, desde modo eu poderia ajudá-lo a chegar em seu destino e ele ainda me adiantaria bastante na minha viagem.

Ele topou, e logo estávamos na estrada. Foram agradáveis 40km na companhia do sr. Bira, um simpático motorista, que encantava-se com a beleza da Rio-Santos. E não era sem razão: Apesar de morar geograficamente mais próximo das belas praias da Região dos Lagos, o caminho que ele faz até lá passa pela insossa Rodovia Amaral Peixoto, com seus vários pedágios, passando boa parte do caminho longe do litoral. Um crime! Ali, na Rio-Santos, a cada curva se avista uma nova praia, uma ilha, um túnel de árvores...

Logo chegamos no bairro de Verolme, onde ficava o tal estaleiro que ele queria chegar. Fiquei aliviado de não ter errado o caminho. Nos despedimos com um mútuo "boa sorte", e partimos cada um para o seu lado.

Agora sim eu começava minha jornada.
Praia de Monsuaba
Não ligue para as datas das fotos, estão erradas.
Alguns poucos quilômetros a frente, optei por parar na primeira praia que vi, a do Camorim, lar de um outro personagem deste blog, que ofereceu-me carona em outra ocasião, o lendário Sr. João do monza azul escuro. A parada foi estratégica, porque já passavam das 13h e eu precisava comer alguma coisa para manter-me em pé - ou melhor, sentado, pedalando.

A Praia do Camorim, apesar de não muito limpa, pareceu-me agradável e seus banquinhos espalhados pela orla foram-me bem úteis para uma rápida refeição, uns sanduíches deliciosos que só minha esposa sabe preparar. Eu levava 6 deles nessa viagem, e cada um valia por uma refeição.

 As subidas e descidas do caminho mostraram-se bem menos assustadoras do que pareciam ser. Até a chegada no trevo de Angra dos Reis, eu não havia carregado a bicicleta uma vez sequer. Ainda tinha bastante gás para seguir em frente.
Não sem antes bater algumas fotos, é claro.
Algumas partes do caminho são belíssimas e paradoxais. Como essa foto da pista acima, com o acostamento em melhor estado do que a via em si. Era bom eu aproveitar as boas condições do acostamento mesmo, por que o que viria pela frente não era fácil.

Passei pelos bairros mais periféricos de Angra, muitos infelizmente com um excesso de ocupações irregulares, que sempre acabam gerando prejuízo humano e material na época das chuvas mais fortes. Por um outro lado, vi diversos edifícios populares sendo construídos, um forte indicativo que há sim interesse por parte do governo de Angra em dar condições dignas de moradia aos seus habitantes menos abastados.
O pôr-do-sol já se aproximava e eu estava cada vez mais apreensivo. A Vila Histórica de Mambucaba não estava longe, mas dadas às circunstâncias do tempo, era necessário que eu optasse por ficar em uma das praias anteriores à Vila, como a Praia Brava ou a Vermelha.
Passei pelo bairro de Bracuí rapidamente, onde um forte cheio de cinzas misturado a fezes de animais deixou-me um pouco enjoado. Logo mais a frente chegava Frade, onde entrei rapidamente no Corpo de Bombeiros para pedir um pouco de água. Atenderam-me muitíssimo bem, e o ambiente era tão aconchegante que quase pedi abrigo para passar a noite lá, um costume bem comum entre vários cicloviajantes.

De Frade até a Praia Brava, onde decidi ficar, era necessário subir uma serra. Pela primeira vez no dia, tive que carregar a bicicleta, mas por pouco tempo. Entre borboletas e até micos mortos pelo chão (atropelados?), deparei-me com a imponente Usina nuclear de Angra dos Reis, provavelmente a usina mais mal localizada do mundo, uma vez que sua única rota de fuga é a Rio-Santos ou... o mar.
Por sorte, um viajante estava tirando algumas fotos. Não hesitei em pedi-lo para tirar uma minha também.

Mas a sorte do dia acabou por aí. Descendo a serra, cheguei com o dia ainda claro na Praia  Brava, ou melhor, na Vila Residencial Praia Brava, onde moram os funcionários da empresa responsável pela usina, a Eletronuclear. Um lugar de arquitetura tão bela quanto um conjunto habitacional de baixa renda. A orla da praia não chega nem aos 800m, mais isso não impede que os adolescentes filhos dos funcionários exibam suas potentes bicicletas elétricas, vestidos como se estivessem na Barra da Tijuca, quando na verdade estão morando de favor em casas do governo só porque papai passou em concurso público. 

Calma, você vai entender meu mau-humor.

Aproveitei o único chuveiro que vi pela orla e tomei rapidamente um banho (de sunga, claro), para ficar limpo da poeira adquirida na estrada. Estava arrumado, cheiroso e pronto para passar a noite ali. Claro, não era o que havia sido planejado, mas era melhor que nada. Logo anoiteceu e eu dobrei a bicicleta, coloquei-a na bolsa e preparei-me para passar a noite ali mesmo, sentado em um dos bancos de frente a praia, ouvindo o barulho do mar. Eu esperava que a noite passasse rápido. Infelizmente, ela foi longa, muito longa.

Vamos começar de um princípio básico. O nome do lugar é "Vila Residencial", não "Condomínio". A prefeitura identifica o local como um simples bairro de Angra, o que é factível, haja vista que em seu interior existem agências bancárias, supermercados, Correios e até um Hospital Municipal. Um lugar público sob a administração de uma empresa pública, correto?

Nem tanto. Eu não contava com a incompetência e inabilidade dos funcionários terceirizados da empresa Angel's - Segurança e Vigilância LTDA. Os truculentos e pessimamente treinados vigilantes começaram a INVENTAR que eu não poderia ficar no local, um simples banco em frente ao mar. É crime agora sentar em frente a praia? "A lei não permite ficar aqui", um deles rosnou. Qual lei, a lei marcial???

Convenceram-me a ficar então longe da praia - afinal, "os moradores iriam reclamar" - e dirigir-me ao ponto de ônibus da Vila. Lá fiquei, pensando que meus problemas haviam acabado, quando um novo bando de vigilantes, intimidando-me com suas mãos nas armas das cinturas, trataram-me pior do que um muçulmano em dia de 11 setembro em Nova York. Eles realmente estavam compelidos a me convencerem de que eu estava em situação "ilegal" por simplesmente estar SENTADO NUMA PORCARIA DE UM BANCO. Será que eu estava sem passaporte, ou sem visto? Por que mais parecia que eu estava em outro país, ou melhor, em outro planeta.

Pedi para que chamassem a polícia - afinal, sob qual alegação as verdadeiras AUTORIDADES do local iriam retirar-me dali? Mas as antas, demostrando serem completamente ignorantes às leis desse país (ou será do País da Praia Brava?) negaram meu pedido, usando de coerção para expulsarem-me do local.

O horário disso tudo? 21h. Eu, sozinho, na Rio-Santos à noite, numa escuridão tão completa que só não era mais assustadora porque o céu ali tinha estrelas brilhantes que iluminavam os caminhos da minha mente, dando-me forças para percorrer os 4km que faltavam para chegar na próxima praia, a Praia Vermelha.

A sensação era péssima, estava me sentindo pior do que um cachorro, pondo minha vida em risco de bobeira por conta da estupidez de meia-dúzia de funcionários mal treinados que desconhecem as leis do próprio país que vivem. O breu da estrada era total, e a única iluminação que havia eram dos poucos carros que passavam pela estrada. O farol alto de alguns criavam sombras tenebrosas que me tiravam a concentração, e quando viam do lado oposto, cegavam-me completamente por perigosos segundos, onde eu sequer sabia se estava na pista ou no acostamento. 

Mas parecia que a sorte havia voltado, se é que podemos de falar de sorte numa situação como essas. Entrei no primeiro ponto iluminado que vi... era a Praia Vermelha! Sua entrada é bem simples, como a de um bairro comum, e um viajante distraído dificilmente diria que ali há uma praia.

Ao me aproximar da escadaria que me levaria à praia, um funcionário de uma das pousadas do local me viu chegando e logo perguntou, assustado: "Cara, da onde você tá vindo de bicicleta a essa hora? Você vai pra praia agora, nesse escuro?".

Com os níveis de adrenalina ainda altos pela aventura forçada a qual fui submetido, desabafei com o rapaz. Ele, com uma grande empatia, consternou-se com a minha situação e propôs se a me ajudar. A princípio fiquei meio receoso, mas depois vi que sua ideia era bem aceitável naquela situação: Sugeriu-me ir a praia e deitar em alguma rede ou cadeira de descanso de algum quintal das casas e mansões vazias que beiram a praia, das quais seus moradores só aparecem aos finais de semana.

Como se não bastasse, ele ainda desceu comigo a escada, ajudando-me com a bicicleta. Após a péssima experiência anterior, admirei muito o ato de bondade desinteressado do rapaz, que brindou-me com a frase da noite: "A gente nunca sabe o dia de amanhã".
Meu alojamento temporário na Praia Vermelha, muito confortável!
E não sabemos mesmo. O meu dia seguinte aguardava ainda muito mais surpresas, muitas boas e outras proporcionalmente desagradáveis. Mas não era hora de pensar muito sobre. Precisava relaxar, tirar a tensão das últimas horas e dormir um sono, embalado pelo som de Foo Fighters, Pet Shop Boys e The Cranberries.

Acompanhe a continuação da viagem na Parte II

3 comentários:

  1. Wendell Raphael, Sou morador de Angra e sei bem quando fala da falta de preparação da em´presa que administra a vila residêncial de praia brava. Só uma pergunta: vc conseguiu entrar de bicicleta lá?

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  2. Ah, achei mto bacana, seu blog e suas aventuras!

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  3. Oi, Alex, obrigado pelo comentário!

    Em relação à Vila, sim, entrei normalmente de bicicleta lá, como relatei no texto. O problema foi a minha permanência - arranjaram mil desculpas pra me expulsar de lá. Uma pena.

    Abraço, volte sempre.

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