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quinta-feira, 24 de maio de 2012

De carona na História - São João Marcos e Lídice (Rio Claro/RJ)

O nome do blog não é "Bicicleta & Etc" à toa. Se o cicloturismo faz presença aqui constantemente através das jornadas no pedal, eventualmente também teremos relatos de trilhas e demais viagens por meios alternativos

Hoje daremos espaço ao et cetera, em um curioso e instigante passeio de carona pelas rotas da história do nosso país, começando por São João Marcos.

Ah, São João Marcos: lá e de volta outra vez


Localizada na Região do Vale do Paraíba, a cidade de São João Marcos surgiu graças aos processos de expansão territorial  durante o ciclo do Café, tornando-se um dos municípios mais prósperos do Brasil a partir do século XIX.

Entretanto, com o declínio da economia cafeeira, São João Marcos começou a sofrer um processo de decadência. Mesmo tombada em 1939 pelo Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), uma ação inédita de “destombamento” foi ordenada. A mando do então presidente Getúlio Vargas, a cidade começou a ser demolida em 1940, desalojando compulsoriamente os habitantes, para dar lugar à expansão de uma represa, a fim de suprir a crescente demanda por água e energia elétrica da então capital federal, a cidade do Rio de Janeiro. 
Localização de São João Marcos. Fonte

A destruição da cidade nunca foi completamente esclarecida e mostrou-se desnecessária ao longo do tempo. Esquecida por mais de 70 anos, São João Marcos ressurge atualmente como o Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos.
A história dessa cidade que foi destruída, abandonada e agora redescoberta me chamou muito a atenção desde que, nem lembro como, comecei a ler sobre ela. Em junho de 2011, poucos dias antes do meu casamento, empreendi uma viagem em direção ao local, de forma bem irresponsável, aliás. Vamos por partes:

Eu ainda estava usando aquela minha antiga bicicleta que mal se segurava em pé, com um pneu traseiro completamente rachado e freios não muito bem regulados. Para completar a situação, não levei nenhum kit de remendo ou câmara reserva. Na bolsa, apenas algumas barrinhas de cereal e uma garrafinha de água.

O trajeto? Exatos 150km, ida-e-volta, passando pelas famosas subidas e túneis de Mangaratiba. Isso sem contar que, naquele tempo, a subida da Serra do Piloto (597m) ainda estava em processo de pavimentação, com boa parte do caminho ainda em estrada de terra, com trechos em calçamento de pedra, originais da época de abertura da estrada.

Um passeio que tinha tudo para não dar certo, mas que incrivelmente deu. Senti falta da câmera fotográfica, que não pude levar, mas registrei com carinho na memória tudo o que vi por ali. Durante a subida, a cada vez que descia da bicicleta e a carregava, sabia que cada gota de suor seria recompensada na chegada ao Parque.

Nos 10km finais, já no alto da serra e dentro do município de Rio Claro, um simpático casal de idosos ofereceu-me carona em uma pickup, permitindo-me um ganho maior de tempo, já que eu havia saído de caso bem cedo e o relógio já marcava perto de meio-dia.


A sensação de estar naquele lugar apocalíptico, mesmo que de certa forma repulsiva, por fazer lembrar da ganância humana a qualquer custo, causou uma intensa experiência em mim. No silêncio das ruínas adormecidas da cidade, pude sentir a natureza e captar a essência daquela que já foi uma das mais importantes cidades brasileiras.

Saí de lá com uma certeza: Eu voltaria! Na descida da serra, perigosa pelo chacoalhar que as pedras faziam na bicicleta sem freio, cheguei a tempo em casa, já anoitecendo - e completamente exausto pela mais longa viagem que eu já havia pedalado em um só dia.

O tempo passou, e em abril deste ano um trabalho em grupo da faculdade surgiu como desculpa perfeita para voltar lá. Era hora de chamar os amigos Pedro e Rodrigo para essa aventura, levando minha bicicleta dobrável já dobrada dentro de uma bolsa -  para uma eventual volta pedalando -, além de algumas plaquinhas de papel com nossos destinos escritos. Pela ausência de transporte público no local, sabíamos de antemão que só chegaríamos lá de carona.
Bem cedo, saímos de Campo Grande rumo a Mangaratiba, de ônibus, descendo já no distrito de Serra do Piloto, onde começaria de fato a jornada.
Um certo receio nos abateu, já que a estrada parecia pouquíssimo movimentada. Como conseguir carona nessa situação? E imaginar que, por volta de 1857, quando a estrada foi inaugurada pelo imperador D. Pedro II, o movimento devia ser bem intenso, pois era a única via de escoamento da produção de café entre São João Marcos e o porto de Mangaratiba. Mas não desanimamos, e continuamos em frente, encontrando belas surpresas pelo caminho...
...como por exemplo, as ruínas do teatro que servia de entretenimento aos Barões do Café da época. Mesmo com suas estruturas comprometidas pelo tempo, a construção nos dá uma ideia da pujança econômica da região.
 Degradados pelo tempo e pelo vandalismo, mas ainda imponentes
Cada carro que passava era um milagre a ser comemorado, com efusivos polegares inclinados em pedido de carona, juntamento com as placas levantadas.
Reconstituição da cena

Após algumas tentativas, enfim, a carona apareceu! Era o simpático Sr. João, que a bordo de seu carro, levava-nos serra acima, passando por curvas sinuosas e trechos originais da estrada, preservados pela recente pavimentação.

Nosso motorista, morador antigo do lugar, contava-nos causos interessantes sobre nosso destino, além de teorias da conspiração sobre Getúlio Vargas e suas atitudes que culminaram na destruição de São João Marcos.

Alguns minutos depois, vencíamos a primeira etapa e descíamos no alto da Serra do Piloto, cruzando a pé o limite entre Mangaratiba e Rio Claro. Rodrigo ainda não acreditava no que havia feito. A princípio, assustado com a ideia de pegar carona com um desconhecido, até que se saiu bem em sua primeira experiência. Mas não seria a única...

Ainda faltavam alguns quilômetros até a entrada do Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos. Mesmo com a timidez do Rodrigo, não hesitamos em ficar na beira da estrada e pedirmos mais uma carona, que veio bem rápida desta vez. Quem nos acompanhou pelos 6 km restantes foi um dos engenheiros responsáveis pela pavimentação da pista. Ele explicou-nos que aquele trecho já não fazia mais parte da Estrada Imperial, apesar de ser paralela a esta.
Em pouco tempo havíamos chegado! Não foi com pouca emoção que adentramos as portas do Parque, em direção a São João Marcos – ou pelo menos ao que sobrou da cidade. Ali, não respirávamos mais oxigênio, e sim história.
O desenvolvimento dos meios de transporte fez a cidade perder sua importância geográfica privilegiada, além dos problemas referentes à abolição da escravidão e a produção de café. Sua população foi reduzida para menos da metade no início do século XX. Igrejas, clubes, pensões e teatros, antes lotados, agora ficavam às moscas. Perdendo o status de município, São João Marco regrediu e viu-se reduzida a um distrito de Rio Claro (RJ).

Na época, terrenos foram desapropriados; demolições e explosões devastaram a cidade, que seria inundada. Segundo o Sr. João, nosso primeiro caroneiro, tudo não passou de uma questão de interesses pessoais de Getúlio Vargas e os assuntos escusos de seu cunhado que vivia no Canadá, país de origem da companhia responsável pela represa. Seja lá o que tenha ocorrido, o estrago estava feito. E o pior de tudo: em vão. Os cálculos estavam errados, e a represa jamais chegou a alagar a cidade. Não havia justificativa para a perda humana, ambiental e histórica de São João Marcos.


Caso tivesse sua arquitetura preservada, São João Marcos poderia hoje em dia certamente concorrer de igual para igual com Paraty, como importante polo turístico e cultural. Ainda assim, com a criação do Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos em 2011, muita coisa vem sendo recuperada. São ao todo 33 mil m² que estão recebendo atenção do Instituto Light – responsáveis pela criação do parque – e do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), pioneiros no Brasil na recuperação arqueológica de uma cidade inteira.
O Parque possui uma grande infraestrutura, como o Centro de Memória que, com ares de museu, dispõe de vários artefatos encontrados na região nas diversas escavações já feitas, além de muitas fotos, painéis e uma maquete que ilustra bem a grandeza de São João Marcos enquanto cidade. Também conta com um anfiteatro e uma lanchonete.
Quando de fato chegamos no Parque – há uma distância de 2 km a ser percorrida dos portões de entrada até o início do parque em si -, o Centro de Memória estava fechado, pois era dia de manutenção. Conseguimos convencer os funcionários a nos deixarem entrar, o que colaborou para o caráter único de nossa experiência.
Ainda tivemos a oportunidade de passear pelas ruas, ver onde era a praça, a capela e a prefeitura. Foi uma sensação indescritível, bela e ao mesmo tempo tão triste e cheia de significados. Afinal, o que fizemos em nome do progresso?
É uma pena que, a despeito de todos os esforços, São João Marcos só possa ser totalmente sentida com a imaginação.
Nem a igreja da cidade escapou da destruição

A hora ia passando e planejávamos o nosso próximo destino, Lídice, outro distrito de Rio Claro, criado em homenagem a uma cidade da República Tcheca que durante a Segunda Guerra Mundial foi vítima de um massacre de toda sua população pelos nazistas.

Enquanto adaptávamos nossos planos, preparando a próxima plaquinha de carona para o centro de Rio Claro, fomos ajudados pelos funcionários do local, em especial o Sr. Nei, responsável pelo parque que prontamente nos ofereceu carona, sem nem mesmo pedirmos. É claro que aceitamos!
 Confecção das plaquinhas de carona, uma lição internacional
Já no carro do sr. Nei, prontos para a carona até Rio Claro. Repare na bolsa com a bicicleta dobrável dentro, um "pequeno" incômodo compartilhado com todos que durou a viagem inteira.

Instalamos-nos no banco de trás do carro, não tão confortáveis, mas imensamente felizes pelo modo de como as coisas estavam ocorrendo bem. Rodrigo estava menos temeroso, e com todos relaxados, seguimos 20 km à frente numa linda viagem alternando entre lindos morros de pastagem e frações de mata atlântica preservada, com seus cheiros e sons característicos.

A conversa com o Sr. Nei foi produtiva. Foi uma surpresa saber que as escavações continuam em andamento, e que ainda há muita coisa a ser descoberta – como por exemplo, uma antiga fábrica de tecidos nas proximidades do parque, onde muitos marcossenses trabalhavam.

O Sr. Nei pareceu-nos uma dessas pessoas que são realizadas na vida, pois trabalham naquilo que realmente gostam. Sua alegria em descrever seu trabalho, e de como recebe os vários grupos de estudantes dos municípios vizinhos era contagiante. Em média, 200 crianças por semana. Só no último dia, havia recebido 90 crianças do Morro do Alemão. Falou-nos também sobre a forte emoção dos antigos habitantes da cidade ao visitarem o parque, o quão tocante isso é.

Conversando, a viagem passou rápido, e logo estávamos no centro de Rio Claro.

Rio Claro se apresentou muito bem cuidada, pacata e limpa, como toda cidadezinha do interior. Chegamos a entrar no Centro Cultural mas, ao contrário do que imaginávamos, o acervo é bem fraco e pouco tem a ver com a cidade ou coisas relativas a ela, o que é uma pena.

Pegamos então um ônibus para descer um pouco a serra, do lado oposto ao que viemos, rumo a Lídice. Já na condução pudemos deslumbrar as belezas naturais dessa região, muito fresca e arborizada, e nem mesmo a chuva que caiu enquanto estávamos no trajeto nos assustou. Lídice então surgiu, ainda mais pacata do que Rio Claro, mas com uma personalidade forte e cativante.
Hora de aliviar um pouco o peso da bolsa da bicicleta que carregávamos nos ombros. Desdobrei e a coloquei para rodar, para facilitar nossa mobilidade.
A Lídice original, na República Tcheca, foi completamente dizimada por um ato de vingança irracional dos nazistas, em represália a um atentado em que moradores da cidade tiveram participação. Mataram todos os homens de Lídice, encaminharam as mulheres para campos de concentração e as crianças para reformatórios. Insatisfeitos, mudaram o curso do rio e aterraram a cidade, que sumiu do mapa. No fim da Guerra, os países aliados decidiram homenagear as vítimas, dando o nome de Lídice a uma de suas cidades. E assim, a antiga Santo Antônio do Capivari, em Rio Claro, tornou-se “Lídice”, com direito a um monumento de uma Fênix (“A ave que renasce das cinzas”) e um Centro Cultural onde há quadros e exposições do país do Leste Europeu. Não pudemos conhecê-lo, pois estava fechado para reformas.

Após um dia cheio de emoções e novos conhecimentos, era hora de fazer a viagem de volta pra casa. O ônibus iria demorar a passar, e ainda assim, tinha uma tarifa proibitiva para os nossos padrões. Buscamos carona novamente na estrada, onde fomos bem atendidos pelo Sr. João (sim, outro!), que em posse de seu Monza azul escuro guiou-nos pacientemente por mais de uma hora pelas típicas chuvas da Serra d’Água.

Entre muita névoa através do túneis de paralelepípedos e rocha bruta, o Sr. João, legítimo cidadão angrense e bom conhecedor da desordem urbana e ambiental de sua terra, lamentava o fato de nunca ter ido à Ilha Grande. Ele ainda parou no meio do caminho em uma lanchonete de estrada, oferecendo-nos uma Coca-Cola geladíssima e biscoito de polvilho, dos quais recusou veementemente qualquer pagamento. Sr. João é ídolo!

Descemos, enfim, em Angra, onde pegaríamos um ônibus para Mangaratiba e de lá então de volta para casa. Não éramos mais os mesmos. Após um banho não só de história  mas também de vivência social, despojamo-nos de todos os preconceitos em relação às caronas. Era necessário ver a sociedade de outro modo, como organismo vivo que atua diretamente sobre seu território. E o que queremos para esse território?

Dali em diante, sabíamos que não poderíamos mais ser turistas, visitantes ou excursionistas. Éramos viajantes, porém nativos; residentes do planeta Terra, cujo souvenir mais valioso que poderíamos obter é a cultura e informação.

Ah, e a amizade também. O nosso tímido amigo Rodrigo gostou da experiência.

4 comentários:

  1. Oi, estou amando seu blog e comentários,tem pouco tempo que fui trabalhar em Mangaratiba e pesquisando cheguei aqui.Estou já anotando suas dicas,pois, tenho muita vontade de conhecer estes locais,só preciso convocar uma turminha.
    Parabéns, continuem assim,curtindo.
    Show,show!!!

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  2. Que historia impressionante...
    Sou morador da regiao, o tal vale do cafe, Rio Claro
    Realmente fora uma vitoria d vcs, parabens pelo esforço de se suprir com informaçoes...
    O lado ruim eh saber q a cidade toda foi destruida atoa, ainda existem patrimonios historicos aqui q estao despencando por falta d uma restauraçao ou mesmo de preservaço.
    Parabens pela jornada de voces.

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  3. Amigo, só uma pequena correção: No lugar de VIla Histórica de Mambucaba, escreva, por favor, somente Mambucaba.
    No lugar de Vila Residencial de Mambucaba, escreva por favor somente Vila Residencial ou, Praia de Batanguera.
    OUtro fato: Mambucaba só existe uma e, fica no Município de ANgra dos Reis.
    Batanguera já faz parte do Município de Paraty.

    Obrigado, abraços e, parabéns pelo Blog e pelo trabalho ciclístico.

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