Páginas

sábado, 26 de maio de 2012

Pedalando do Rio a Ubatuba - Parte II

Acordei com o despertador às 05h30, pois queria levantar bem cedo e não chamar a atenção. O sol ainda não havia nascido enquanto eu já me arrumava para mais um dia de pedalada pela Rio-Santos. Desta vez, seriam quase 90km partindo da Praia Vermelha, em Angra, até a Praia da Fazenda, em Ubatuba.



Como eu havia chegado à Praia Vermelha no dia anterior já bem tarde, não tive a oportunidade de visualizar a praia. Agora, conforme os primeiros raios de sol surgiam eu começava a tomar dimensão do paraíso em que havia passado a noite. 

Aproveitei que ainda estava cedo e resolvi ir até o final da praia. No caminho, diversas casas e mansões de alto padrão que conseguiram manter uma certa harmonia arquitetônica com a natureza.



Avistei de longe uma guarita de uma espécie de estacionamento de iates, onde um rapaz ouvia música pelo rádio. Pedi para usar o banheiro. Ao sair, o funcionário - Rafael - ofereceu-me um café, que aceitei prontamente, apesar de não ter o costume de tomar. 

Assim como eu, ele também trabalhava de madrugada e estava completamente entediado. Aproveitou minha companhia então para conversar em minutos o que provavelmente não falara em dias: de futebol a família, morte e política, etc. Assustou-me um pouco quando começou a dizer dos perigos dos próximos lugares que eu passaria. "Não parece, mas essas bandas aí são perigosas. Não sei nem como você chegou aqui sem te acontecer nada... tem muito ladrãozinho na estrada."

Quando vi o relógio, já eram quase 06h30 e meu tempo estava estourado. Era hora de partir, sem medo, para enfim conhecer o lugar em que estava em meus planos ficar no dia anterior: a Vila Histórica de Mambucaba. 

Com a bicicleta já na estrada, encarei mais uma pequena subida e logo vi a entrada da Vila. Em uma contínua descida, logo chegava a uma rua de calçamento de paralelepípedos. Era, enfim, o primeiro destino do dia cumprido.
Mil vezes mais bonita e agradável do que a "Vila Residencial" da Praia Brava, a Vila Histórica chamou a atenção não só pelas muitas de suas ruínas na paisagem, mas também pela bela praia, a restinga e seu clima bucólico e atraente. 
 Era uma pena não poder passar mais tempo ali, pois eu adoraria. Fica pra próxima.
Um senhor já bem idoso me chamou a atenção. Sentado sobre sua cadeirinha de praia na sombra, ele tinha uma bengala a tiracolo e um dos olhos incapacitado de enxergar, apresentando uma cor bem diferente do outro. Como se resolvesse tirar o dia para admirar a praia, resolveu levantar e a passos curtos foi guiando-se com sua bengala pela areia fofa.
Não resisti a uma foto, que pode não ter ficado tão boa mas mesmo assim registrou o momento de longe. Logo adiante, havia o rio Mambucaba, que serve como divisa natural para dos municípios de Angra e Paraty. Fui ao encontro do tal senhor, perguntando se havia alguma ponte que atravessasse o rio, ou se até mesmo dava para atravessá-lo a pé, chegando assim na Vila Residencial de Mambucaba, já em Paraty.

Ele então fitou-me nos olhos e, com uma voz mansa e bem baixinha, informou que não havia ponte alguma e anda aconselhou-me a não atravessar de maneira alguma o rio. "Parece raso, meu filho, mas esse rio é muito caudaloso". Perguntei se ele era morador da praia, e diante de sua resposta afirmativa, falei sobre a viagem que estava empreendendo.

Com uma tranquilidade que somente a experiência de vida pode dar (ou seria efeito de todos os anos contemplando o mar?), ele não surpreendeu-se com meus objetivos. Apenas incentivou-me, elogiando a beleza dos lugares que eu iria encontrar pela frente. "Essa região é linda, você vai ver muita coisa bonita", ele dizia. E como pudesse adivinhar meus receios, prosseguiu: "O caminho é muito calmo, não há perigo algum". Diante daquele velho tão sábio, de aparência frágil e serena, percebi então que o único perigo  que eu corria era o de me fixar raízes no local e não querer voltar mais pra casa.

Mas era hora de seguir em frente. Por uma pequena rua mal sinalizada, saí na Rio-Santos e, ainda descendo, atravessei o linha invisível que divide Angra dos Reis de Paraty. Ainda com certo trauma da Praia Brava, relutei em entrar nessa outra Vila Residencial, a de Mambucaba, mas a curiosidade me venceu e acabei entrando. Não me arrependo. O nível era outro.
Sentado no banco, e aproveitando que ninguém me expulsaria desta vez, fiz um lanche rápido e hidratei-me para a continuação da viagem, que seguiria ainda por muitos quilômetros entre serra e mar.  



Conforme eu já havia lido, a qualidade do asfalto cai consideravelmente em Paraty. Na pressa, acabei deixando passar praias que eu realmente gostaria de conhecer, como a Prainha e a Praia do Coqueiro. Quando vi, era tarde demais. Optei por não voltar, e segui em frente até avistar já da estrada a praia de Tarituba.
Na descida para Tarituba, uma surpresa desagradável: A câmara havia furado novamente, graças às pedrinhas espalhadas pelo acostamento. Na verdade, o furo era no pneu (!), e a perfuração da câmara era apenas consequência. Como o buraco era bem diminuto, desci até Tarituba e lá improvisei um remendo para dar continuidade a viagem.
Confesso que eu esperava um pouco mais da praia de Tarituba, mas os urubus que foram se bronzear me tiraram a vontade de dar um mergulho. A vila de pescadores, que inclusive foi cenário da novela Mulheres de Areia, era bem simples e acolhedora. Aproveitei para recarregar o suprimento de água, tirada direta da fonte que todos bebem por lá.
Com o problema da bicicleta resolvido, segui em frente, não sem antes ser importunado por alguns cachorros, que pareceram não simpatizar muito com a minha bicicleta.

No caminho, cada vez mais crateras no asfalto. É necessária uma boa dose de atenção e destreza para pedalar por ali sem por-se em risco.
Com o tempo passando cada vez mais depressa, optei por não parar nas tão famosas praias de São Gonçalo e São Gonçalinho. Pelo caminho, algumas paisagens tornaram-se um tanto monótonas, principalmente entre os trechos do Sertão de Taquari e Barra Grande. Não sei se felizmente ou infelizmente, naquele dia estava ocorrendo um recapeamento do asfalto, e por isso em determinados trechos interditados, apenas um lado da via funcionava, liberando de tempos em tempos o tráfego que ia e vinha. 

O tempo com os carros parados compensava pela estrada vazia, que era só minha, mas quando eles eram autorizados a passar a situação complicava-se um pouco, obrigando-me a parar algumas vezes. O cheiro dos materiais derivados de petróleo da obra também não eram dos mais agradáveis.

Próximo a entrada de Praia Grande, um susto: Meu pedal dobrável quebra. Não que ele estivesse em suas melhores condições, na verdade já estava quebrado, mas era possível contornar o problema pedalando com a outra face do pedal. Dessa vez, ambas as faces inutilizaram-se. Restava-me pedalar com um cotoco, forçando o pé para bem perto da pedivela.

Desci para a Praia Grande a fim de resolver o problema som silver tape, mas minha tentativa foi em vão. Voltei para a estrada e fui pedalando do jeito que dava. Logo surgiu o trecho pronto da nova pavimentação. Com essa parte da estrada tão lisa quanto um tapete, logo cheguei na primeira entrada do centro de Paraty, através do bairro Jabaquara. Foi bom conhecer essa rota alternativa, que passa pela parte mais residencial de Paraty, nem sempre tão conhecida do turista que frequenta a cidade.

Em pouco tempo eu passava pela ciclovia do bairro Caborê, que seguia ao lado da Av. Beira Rio e, evidentemente, do Rio Perequê-Açu. Passavam das 14h, eu ainda não havia almoçado ("Só almoço quando pisar na areia da Praia do Pontal", combinei mentalmente comigo antes) e a cada vez que eu aproximava-me do Pontar a bicicleta parecia ficar mais lenta, o pé mais pesado.
De alguma forma, cheguei em frente a praia, que fica praticamente ao lado do centro histórico da cidade. Pisando na areia, arrastei a bicicleta para perto de mim e desabei no chão de cansaço, escorando-me em uma árvore. Como seguir até Ubatuba naquelas condições? Já havia até mesmo ligado para minha esposa e falando que não dava, daquele jeito não iria rolar. Era hora de pendurar a chuteira e ficar logo em Paraty mesmo, que não deixava de ser uma grande conquista.
Dormi por uma hora na areia da praia. Assim que acordei fui logo me hidratar, comer algo e pensar. Não, não podia ser assim. Faltavam apenas 20km para a Praia da Fazenda, em Ubatuba. Mesmo com um aclive de mais de 350 metros pelos próximos 10km, até a divisa dos estados, era perfeitamente possível SIM chegar até meu destino antes do anoitecer. Busquei energias não sei da onde, levantei-me e tive a certeza de que eu naquele dia eu pisaria em território paulista, custasse o que fosse.

Aliás, vamos tirar a palavra "custar" daí.  Eu bem que poderia ter comprado um novo pedal, mas por uma combinação de pressa com pão-durismo, simplesmente saí do centro da cidade e segui em frente.

A partir daí, cada quilômetro vencido era uma vitória.
Conhecia o caminho somente até Trindade, em uma viagem anterior que fiz de ônibus. Foi com uma imensa alegria que vi a placa indicativa. Mas a intenção era só fotografar mesmo, pois subir a "serra do Deus nos acuda" definitivamente não estava nos meus planos.

Eu havia estudado bastante o mapa e a altimetria do percurso e, confesso, esperava mais da tal subida que divide o Rio de Janeiro de São Paulo. Empurrei a bicicleta sim, mas poucas vezes. Mais cedo do que eu imaginava, eu estava realizando o primeiro grande objetivo desta cicloviagem: Cruzar a divisa desses dois Estados!
Não pude conter a alegria...
... e nem o cansaço, mais mental do que físico a essa hora.

Enfim, eu estava em território paulista, ubatubense para ser mais preciso. E logo senti a diferença, pois a temperatura do lado de lá cai bruscamente, e a umidade é tão grande que meu retrovisor inutilizou-se com tanto embaçamento. Na descida, mesmo sem esforço algum, eu estava encharcado.
Já era possível avistar no horizonte os quase 5km de extensão da Praia da Fazenda.


A surpresa ficou mesmo por conta da distância aparente da divisa até a praia. Seriam 11km, mas que custaram a passar, mesmo com o trecho quase todo em declive.
Não me contive quando vi a primeira placa indicativa. Pouco depois, lá estava eu de frente para a entrada do Parque Estadual da Serra do Mar. Confirmei com duas pessoas que estavam ali em frente: "É só seguir aqui para chegar à Praia da Fazenda? Vim pedalando lá do Rio..."

Fui entrando, estasiado com a sensação de missão cumprida, doido para dar um mergulho não importasse a que temperatura estivesse a água, quando de repente um guarda me chama e informa que minha entrada não está autorizada.

Ai, de novo, não!

Pois é. "Já vai dar 18h", ele informou. Tá, mas e daí? A praia não é pública? Não tem camping na praia? Vim do Rio pedalando, com barraca na mochila preparado para passar a noite lá, afinal isso era possível.

E aí começou o show de má vontade e ladainha. Basicamente, "blá blá blá você não  pode acampar porque os campings autorizados só funcionam em temporada e finais de semana", "blá blá blá o pessoal da ronda vai passar aí às 18h e expulsar quem estiver na praia".

"Ok, meu senhor", dialoguei, "eu vim de bicicleta do Rio de Janeiro até aqui, com a informação de que há campings na praia e que eu poderia acampar. Já vai anoitecer e eu DEFINITIVAMENTE NÃO VOU PEDALAR A NOITE NESSA ESTRADA."

E o tal do guarda prosseguiu com a conversa mole, impedindo-me até mesmo de ficar no estacionamento ou nos arredores de sua guarita. Basicamente, eu não poderia ficar lá e PONTO FINAL. "Não cheguei até aqui para voltar sem dar pelo menos um mergulho", pensei. Aproveitei que ainda não eram 18h e deixei o homem falando sozinho. Ele que reclamasse, eu ia pra praia realizar meu objetivo!
Pouco tempo me restava, era melhor aproveitar.
A cada minuto, a sensação de que ia escurecendo cada vez mais.
Mergulhei rapidamente na água que, apesar do horário, estava deliciosa.
Era necessário voltar, nem que fosse para bater boca novamente. Eu não iria me dar por vencido dessa vez.
Cheguei por volta das 18h e fiquei no aguardo da tal "ronda". Gostaria de conversar com eles e pedi-los para ficar na praia. Não havia para onde ir.

Logo apareceu uma moça numa bicicleta pedalando pela estradinha de terra do parque que levava até a praia. Em minha inocência, a parei e perguntei se ela trabalhava ali. "Não, eu moro aqui!". Mora? Não entendi. Como assim morar em uma reserva ambiental?

"Sim, não só eu moro como outras pessoas também, lá pra dentro", falou ela, apontando para uma pequena trilha. Aproveitei a oportunidade para recorrer às últimas consequências, e pedi abrigo, a ela ou a algum vizinho, dispondo-me inclusive a pagar pela estadia, mesmo que fosse apenas um espaço no quintal para que eu pudesse montar minha barraca.

A moça precisava falar com sua mãe antes, e seguiu no caminho para sua casa. Dona Laura, mãe dela, logo passaria por ali e eu poderia falar-lhe diretamente. Foram minutos de tensão, uma vez que a incerteza do abrigo juntava-se a pressão do guarda para que eu saísse dali o quanto antes.

Logo D. Laura chegou, também de bicicleta. Apresentei-me, mostrando meus documentos e informando de minhas intenções. Mas não era necessário. Naquele momento, eu estava fazendo uma amiga, uma pessoa que com o maior coração e bondade do mundo, que prontamente não só aceitou eu eu ficasse na casa dela, como também ainda iria disponibilizar o quarto de seu filho para que eu dormisse.

Eu não merecia tanto. 

Mais tarde, ela confessou-me: "Eu não conseguiria dormir sabendo que alguém vindo de tão longe estaria andando perdido por aí. Não poderia deixar de te ajudar".

É, a gente nunca sabe o dia de amanhã.
Era hora de chegar até a casa dela, através da trilha que estendia-se por trás da praia. Completamente escura, guiei-me mais pelo som e pela aderência do pneu ao solo. No meio do caminho, uma surpresa: Não é que havia, além dos campings e das casas de moradores remanescentes da área, um ALOJAMENTO? Sim, ali estavam um grupo de universitários devidamente instalados. Fui conversar com um deles, aproveitando para pegar uma lanterna emprestada, e vi que lugar para ficar não faltava. Até me ofereceram um beliche, mas agradeci educadamente.

Cheguei na casa de D. Laura e a primeira providência que tomei foi tomar um banho e colocar uma roupa limpa. Precisava relaxar um pouco da tensão dos momentos críticos com o guarda. Mas eu não imaginava que D. Laura estava preparando naquele momento um verdadeiro banquete com a minha comida preferida: carne assada com batata. Incrível como Deus põe as pessoas certas em nosso caminho nas situações em que mais precisamos.
Conversamos bastante e trocamos grandes ideia. Ela, líder comunitária, contou-me um pouco da história daquelas terras, disputadas pelos quilombolas há anos em uma luta que persiste até hoje com diversas esferas governamentais.

O sono logo chegou. Fui encaminhado para a confortável cama do filho da dona da casa, que estava viajando na ocasião. Muito bem abrigado, adormeci olhando para as pinturas customizadas das paredes do quarto, com elementos do reggae, surf e música.

Descansei o suficiente para o próximo dia, onde eu finalmente poderia conhecer a Praia da Fazenda em toda sua plenitude...

Acompanhe o ato final desta jornada na Parte III 

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Pedalando do Rio a Ubatuba - Parte I

Desde que comecei a ler algumas experiências de outros cicloviajantes, aprendi que quando você alcança os 100km pedalados em um só dia sem muito cansaço, então já pode se considerar apto a pedalar maiores distâncias, podendo optar por organizar-se a curto e médio prazo para alimentação, vestuário, pernoite, etc.

De um ano e meio pra cá - o tempo que, de fato, venho pedalando com regularidade - consegui chegar a um nível de razoável conforto ao encarar distâncias com essa quilometragem aproximada. Logo, achei que já estava na hora de realizar um antigo sonho. Ou melhor, dois: Cruzar a divisa do Rio de Janeiro com São Paulo e conhecer uma praia paulista.

Divisa de Estados - Rio de Janeiro x São Paulo
Muita coisa aconteceu para essa foto ser possível
Mas sentir-se preparado é apenas parte do processo. Quando você já está certo do que vai fazer, vem aquela parte da viagem que eu particularmente adoro: o planejamento. Quanto de comida levar? Acampar ou ficar em hostel? Será que a mochila não está muito pesada? E o pneu, não está na hora de trocar? A bicicleta está lubrificada?

É nessas horas que tudo deve ser visto e revisto, e saiba que não importa o quanto você se planejar, imprevistos VÃO acontecer. Apenas esteja pronto para eles também.

Com todos esses detalhes em mente, eu já havia acertado algumas coisas e decidido a data da viagem. Aproveitaria a minha escala de trabalho flexível (ao contrário do que parece, minha vida não é só pedalar) e tiraria 5 dias de folga, dos quais apenas três dias de fato separados para a viagem, que seria assim:
  • 1º dia: Do Rio até Mangaratiba (com o ônibus do trabalho) e de lá acampar na Vila Histórica de Mambucaba, já em Angra dos Reis. Aproximadamente 110km.
  • 2º dia: Sair de Mambucaba e cruzar Paraty inteira, até atravessar a divisa com Ubatuba e acampar na Praia da Fazenda. Aproximadamente 90km.
  • 3º dia: Voltar o caminho para chegar em Paraty antes das 15h, para encontrar minha esposa, que iria de ônibus. Aproximadamente 40km.
Assim, no dia 08 de maio deste ano eu já estava com tudo pronto. Suprimentos? Confere. Barraca? Confere. Kit emergência para a bicicleta? Evidente. Câmera fotográfica? Por supuesto

Como eu trabalharia de madrugada naquele dia, levei a bicicleta já dobrada na bolsa para o trabalho, juntamente com meu mochilão. Sim, isso mesmo: Eu pedalaria a partir da manhã do dia 09, após ter virado a noite no trabalho. 

Tenho a sorte de trabalhar em uma empresa que disponibiliza vários ônibus para alguns pontos da cidade do Rio de Janeiro e municípios vizinhos para os seus funcionários. Deste modo, eu pegaria uma carona com um ônibus diferente do meu habitual, indo até o distrito de Muriqui, em Mangaratiba, o que me pouparia alguns quilômetros

Lembra de quando eu disse que algo sempre vai dar errado, não importa o quão organizado você seja? Então. O ônibus atrasou um pouco, e acabei chegando uma hora atrasado em Muriqui. Eram 10h30 e eu ainda estava desdobrando a bicicleta em frente a um posto de gasolina. Lugar curioso para se parar com uma bicicleta, aliás. Chamei tanto a atenção que um frentista veio em minha direção, não para reclamar, mas sim para saber mais daquela minúscula bicicleta que dobrava.

Somente por volta das 11h comecei efetivamente a pedalar, aproveitando uma descida de aproximadamente 8km até o distrito de Praia Grande, já retratado aqui no blog. Mal ia descendo e já percebi algo de muito estranho na eficiência da bicicleta: Era a câmara, comprada no dia anterior, que acabava de furar.

Vou confessar um segredo: Sou muito lerdo para efetuar reparos de bicicleta. Eficiente, mas lento. Somente por volta do 12h a bicicleta estava pronta para voltar a estrada, e eu cada vez acreditava menos que iria conseguir alcançar os 110km pedalados naquele dia. Um erro de - vejam só! - planejamento da minha parte, afinal, estávamos falando de uma viagem pedalada majoritariamente pela Rio-Santos. 

Sempre antes de viajar, imprimo um mapa do trajeto pelo Google Maps e por meio do próprio link, faço o cálculo da altimetria, através do site GPS Visualizer. Ela não era muito animadora:
Apesar das medidas serem modestas para os meus padrões, repare que trechos 100% planos seriam praticamente inexistentes nessa viagem. Todo meu caminho seria sobre uma intensa montanha-russa, com seus altos e baixos. Bem que Roberto Carlos já havia avisado sobre as tais curvas da estrada de Santos...

Mas se sempre alguma coisa sai errada na viagem, acredite, algumas outras coisas darão incrivelmente certo, sem que você faça esforço algum. Coincidência, sorte ou destino, não importa. Tá vendo aquela terceira de elevação do gráfico, da esquerda para a direita, marcando aproximadamente 100m? Ali localiza-se o segundo túnel de Mangaratiba, que liga a Praia do Sahy a Praia do Saco. Eu estava exatamente ali, não no topo, mas próximo a marca dos 100m, quando de repente um pequeno furgão com a logo de uma empresa locadora de veículos vai diminuindo a velocidade e se aproxima de mim.

Dentro do veículo, uma voz grita pra mim: "Rapaz, me ajuda! Eu sou lá de São Gonçalo, estou indo para o estaleiro de Angra mas não sei como chegar, é a primeira vez que venho para esses lados, como é que eu faço pra chegar lá??"

Ora, meus amigos, eu não faço fazia a menor ideia de onde era esse tal estaleiro, maaaas eu tinha um mapa! Perguntei então ao motorista se ele não gostaria de me dar uma carona até lá, desde modo eu poderia ajudá-lo a chegar em seu destino e ele ainda me adiantaria bastante na minha viagem.

Ele topou, e logo estávamos na estrada. Foram agradáveis 40km na companhia do sr. Bira, um simpático motorista, que encantava-se com a beleza da Rio-Santos. E não era sem razão: Apesar de morar geograficamente mais próximo das belas praias da Região dos Lagos, o caminho que ele faz até lá passa pela insossa Rodovia Amaral Peixoto, com seus vários pedágios, passando boa parte do caminho longe do litoral. Um crime! Ali, na Rio-Santos, a cada curva se avista uma nova praia, uma ilha, um túnel de árvores...

Logo chegamos no bairro de Verolme, onde ficava o tal estaleiro que ele queria chegar. Fiquei aliviado de não ter errado o caminho. Nos despedimos com um mútuo "boa sorte", e partimos cada um para o seu lado.

Agora sim eu começava minha jornada.
Praia de Monsuaba
Não ligue para as datas das fotos, estão erradas.
Alguns poucos quilômetros a frente, optei por parar na primeira praia que vi, a do Camorim, lar de um outro personagem deste blog, que ofereceu-me carona em outra ocasião, o lendário Sr. João do monza azul escuro. A parada foi estratégica, porque já passavam das 13h e eu precisava comer alguma coisa para manter-me em pé - ou melhor, sentado, pedalando.

A Praia do Camorim, apesar de não muito limpa, pareceu-me agradável e seus banquinhos espalhados pela orla foram-me bem úteis para uma rápida refeição, uns sanduíches deliciosos que só minha esposa sabe preparar. Eu levava 6 deles nessa viagem, e cada um valia por uma refeição.

 As subidas e descidas do caminho mostraram-se bem menos assustadoras do que pareciam ser. Até a chegada no trevo de Angra dos Reis, eu não havia carregado a bicicleta uma vez sequer. Ainda tinha bastante gás para seguir em frente.
Não sem antes bater algumas fotos, é claro.
Algumas partes do caminho são belíssimas e paradoxais. Como essa foto da pista acima, com o acostamento em melhor estado do que a via em si. Era bom eu aproveitar as boas condições do acostamento mesmo, por que o que viria pela frente não era fácil.

Passei pelos bairros mais periféricos de Angra, muitos infelizmente com um excesso de ocupações irregulares, que sempre acabam gerando prejuízo humano e material na época das chuvas mais fortes. Por um outro lado, vi diversos edifícios populares sendo construídos, um forte indicativo que há sim interesse por parte do governo de Angra em dar condições dignas de moradia aos seus habitantes menos abastados.
O pôr-do-sol já se aproximava e eu estava cada vez mais apreensivo. A Vila Histórica de Mambucaba não estava longe, mas dadas às circunstâncias do tempo, era necessário que eu optasse por ficar em uma das praias anteriores à Vila, como a Praia Brava ou a Vermelha.
Passei pelo bairro de Bracuí rapidamente, onde um forte cheio de cinzas misturado a fezes de animais deixou-me um pouco enjoado. Logo mais a frente chegava Frade, onde entrei rapidamente no Corpo de Bombeiros para pedir um pouco de água. Atenderam-me muitíssimo bem, e o ambiente era tão aconchegante que quase pedi abrigo para passar a noite lá, um costume bem comum entre vários cicloviajantes.

De Frade até a Praia Brava, onde decidi ficar, era necessário subir uma serra. Pela primeira vez no dia, tive que carregar a bicicleta, mas por pouco tempo. Entre borboletas e até micos mortos pelo chão (atropelados?), deparei-me com a imponente Usina nuclear de Angra dos Reis, provavelmente a usina mais mal localizada do mundo, uma vez que sua única rota de fuga é a Rio-Santos ou... o mar.
Por sorte, um viajante estava tirando algumas fotos. Não hesitei em pedi-lo para tirar uma minha também.

Mas a sorte do dia acabou por aí. Descendo a serra, cheguei com o dia ainda claro na Praia  Brava, ou melhor, na Vila Residencial Praia Brava, onde moram os funcionários da empresa responsável pela usina, a Eletronuclear. Um lugar de arquitetura tão bela quanto um conjunto habitacional de baixa renda. A orla da praia não chega nem aos 800m, mais isso não impede que os adolescentes filhos dos funcionários exibam suas potentes bicicletas elétricas, vestidos como se estivessem na Barra da Tijuca, quando na verdade estão morando de favor em casas do governo só porque papai passou em concurso público. 

Calma, você vai entender meu mau-humor.

Aproveitei o único chuveiro que vi pela orla e tomei rapidamente um banho (de sunga, claro), para ficar limpo da poeira adquirida na estrada. Estava arrumado, cheiroso e pronto para passar a noite ali. Claro, não era o que havia sido planejado, mas era melhor que nada. Logo anoiteceu e eu dobrei a bicicleta, coloquei-a na bolsa e preparei-me para passar a noite ali mesmo, sentado em um dos bancos de frente a praia, ouvindo o barulho do mar. Eu esperava que a noite passasse rápido. Infelizmente, ela foi longa, muito longa.

Vamos começar de um princípio básico. O nome do lugar é "Vila Residencial", não "Condomínio". A prefeitura identifica o local como um simples bairro de Angra, o que é factível, haja vista que em seu interior existem agências bancárias, supermercados, Correios e até um Hospital Municipal. Um lugar público sob a administração de uma empresa pública, correto?

Nem tanto. Eu não contava com a incompetência e inabilidade dos funcionários terceirizados da empresa Angel's - Segurança e Vigilância LTDA. Os truculentos e pessimamente treinados vigilantes começaram a INVENTAR que eu não poderia ficar no local, um simples banco em frente ao mar. É crime agora sentar em frente a praia? "A lei não permite ficar aqui", um deles rosnou. Qual lei, a lei marcial???

Convenceram-me a ficar então longe da praia - afinal, "os moradores iriam reclamar" - e dirigir-me ao ponto de ônibus da Vila. Lá fiquei, pensando que meus problemas haviam acabado, quando um novo bando de vigilantes, intimidando-me com suas mãos nas armas das cinturas, trataram-me pior do que um muçulmano em dia de 11 setembro em Nova York. Eles realmente estavam compelidos a me convencerem de que eu estava em situação "ilegal" por simplesmente estar SENTADO NUMA PORCARIA DE UM BANCO. Será que eu estava sem passaporte, ou sem visto? Por que mais parecia que eu estava em outro país, ou melhor, em outro planeta.

Pedi para que chamassem a polícia - afinal, sob qual alegação as verdadeiras AUTORIDADES do local iriam retirar-me dali? Mas as antas, demostrando serem completamente ignorantes às leis desse país (ou será do País da Praia Brava?) negaram meu pedido, usando de coerção para expulsarem-me do local.

O horário disso tudo? 21h. Eu, sozinho, na Rio-Santos à noite, numa escuridão tão completa que só não era mais assustadora porque o céu ali tinha estrelas brilhantes que iluminavam os caminhos da minha mente, dando-me forças para percorrer os 4km que faltavam para chegar na próxima praia, a Praia Vermelha.

A sensação era péssima, estava me sentindo pior do que um cachorro, pondo minha vida em risco de bobeira por conta da estupidez de meia-dúzia de funcionários mal treinados que desconhecem as leis do próprio país que vivem. O breu da estrada era total, e a única iluminação que havia eram dos poucos carros que passavam pela estrada. O farol alto de alguns criavam sombras tenebrosas que me tiravam a concentração, e quando viam do lado oposto, cegavam-me completamente por perigosos segundos, onde eu sequer sabia se estava na pista ou no acostamento. 

Mas parecia que a sorte havia voltado, se é que podemos de falar de sorte numa situação como essas. Entrei no primeiro ponto iluminado que vi... era a Praia Vermelha! Sua entrada é bem simples, como a de um bairro comum, e um viajante distraído dificilmente diria que ali há uma praia.

Ao me aproximar da escadaria que me levaria à praia, um funcionário de uma das pousadas do local me viu chegando e logo perguntou, assustado: "Cara, da onde você tá vindo de bicicleta a essa hora? Você vai pra praia agora, nesse escuro?".

Com os níveis de adrenalina ainda altos pela aventura forçada a qual fui submetido, desabafei com o rapaz. Ele, com uma grande empatia, consternou-se com a minha situação e propôs se a me ajudar. A princípio fiquei meio receoso, mas depois vi que sua ideia era bem aceitável naquela situação: Sugeriu-me ir a praia e deitar em alguma rede ou cadeira de descanso de algum quintal das casas e mansões vazias que beiram a praia, das quais seus moradores só aparecem aos finais de semana.

Como se não bastasse, ele ainda desceu comigo a escada, ajudando-me com a bicicleta. Após a péssima experiência anterior, admirei muito o ato de bondade desinteressado do rapaz, que brindou-me com a frase da noite: "A gente nunca sabe o dia de amanhã".
Meu alojamento temporário na Praia Vermelha, muito confortável!
E não sabemos mesmo. O meu dia seguinte aguardava ainda muito mais surpresas, muitas boas e outras proporcionalmente desagradáveis. Mas não era hora de pensar muito sobre. Precisava relaxar, tirar a tensão das últimas horas e dormir um sono, embalado pelo som de Foo Fighters, Pet Shop Boys e The Cranberries.

Acompanhe a continuação da viagem na Parte II

quinta-feira, 24 de maio de 2012

De carona na História - São João Marcos e Lídice (Rio Claro/RJ)

O nome do blog não é "Bicicleta & Etc" à toa. Se o cicloturismo faz presença aqui constantemente através das jornadas no pedal, eventualmente também teremos relatos de trilhas e demais viagens por meios alternativos

Hoje daremos espaço ao et cetera, em um curioso e instigante passeio de carona pelas rotas da história do nosso país, começando por São João Marcos.

Ah, São João Marcos: lá e de volta outra vez


Localizada na Região do Vale do Paraíba, a cidade de São João Marcos surgiu graças aos processos de expansão territorial  durante o ciclo do Café, tornando-se um dos municípios mais prósperos do Brasil a partir do século XIX.

Entretanto, com o declínio da economia cafeeira, São João Marcos começou a sofrer um processo de decadência. Mesmo tombada em 1939 pelo Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), uma ação inédita de “destombamento” foi ordenada. A mando do então presidente Getúlio Vargas, a cidade começou a ser demolida em 1940, desalojando compulsoriamente os habitantes, para dar lugar à expansão de uma represa, a fim de suprir a crescente demanda por água e energia elétrica da então capital federal, a cidade do Rio de Janeiro. 
Localização de São João Marcos. Fonte

A destruição da cidade nunca foi completamente esclarecida e mostrou-se desnecessária ao longo do tempo. Esquecida por mais de 70 anos, São João Marcos ressurge atualmente como o Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos.
A história dessa cidade que foi destruída, abandonada e agora redescoberta me chamou muito a atenção desde que, nem lembro como, comecei a ler sobre ela. Em junho de 2011, poucos dias antes do meu casamento, empreendi uma viagem em direção ao local, de forma bem irresponsável, aliás. Vamos por partes:

Eu ainda estava usando aquela minha antiga bicicleta que mal se segurava em pé, com um pneu traseiro completamente rachado e freios não muito bem regulados. Para completar a situação, não levei nenhum kit de remendo ou câmara reserva. Na bolsa, apenas algumas barrinhas de cereal e uma garrafinha de água.

O trajeto? Exatos 150km, ida-e-volta, passando pelas famosas subidas e túneis de Mangaratiba. Isso sem contar que, naquele tempo, a subida da Serra do Piloto (597m) ainda estava em processo de pavimentação, com boa parte do caminho ainda em estrada de terra, com trechos em calçamento de pedra, originais da época de abertura da estrada.

Um passeio que tinha tudo para não dar certo, mas que incrivelmente deu. Senti falta da câmera fotográfica, que não pude levar, mas registrei com carinho na memória tudo o que vi por ali. Durante a subida, a cada vez que descia da bicicleta e a carregava, sabia que cada gota de suor seria recompensada na chegada ao Parque.

Nos 10km finais, já no alto da serra e dentro do município de Rio Claro, um simpático casal de idosos ofereceu-me carona em uma pickup, permitindo-me um ganho maior de tempo, já que eu havia saído de caso bem cedo e o relógio já marcava perto de meio-dia.


A sensação de estar naquele lugar apocalíptico, mesmo que de certa forma repulsiva, por fazer lembrar da ganância humana a qualquer custo, causou uma intensa experiência em mim. No silêncio das ruínas adormecidas da cidade, pude sentir a natureza e captar a essência daquela que já foi uma das mais importantes cidades brasileiras.

Saí de lá com uma certeza: Eu voltaria! Na descida da serra, perigosa pelo chacoalhar que as pedras faziam na bicicleta sem freio, cheguei a tempo em casa, já anoitecendo - e completamente exausto pela mais longa viagem que eu já havia pedalado em um só dia.

O tempo passou, e em abril deste ano um trabalho em grupo da faculdade surgiu como desculpa perfeita para voltar lá. Era hora de chamar os amigos Pedro e Rodrigo para essa aventura, levando minha bicicleta dobrável já dobrada dentro de uma bolsa -  para uma eventual volta pedalando -, além de algumas plaquinhas de papel com nossos destinos escritos. Pela ausência de transporte público no local, sabíamos de antemão que só chegaríamos lá de carona.
Bem cedo, saímos de Campo Grande rumo a Mangaratiba, de ônibus, descendo já no distrito de Serra do Piloto, onde começaria de fato a jornada.
Um certo receio nos abateu, já que a estrada parecia pouquíssimo movimentada. Como conseguir carona nessa situação? E imaginar que, por volta de 1857, quando a estrada foi inaugurada pelo imperador D. Pedro II, o movimento devia ser bem intenso, pois era a única via de escoamento da produção de café entre São João Marcos e o porto de Mangaratiba. Mas não desanimamos, e continuamos em frente, encontrando belas surpresas pelo caminho...
...como por exemplo, as ruínas do teatro que servia de entretenimento aos Barões do Café da época. Mesmo com suas estruturas comprometidas pelo tempo, a construção nos dá uma ideia da pujança econômica da região.
 Degradados pelo tempo e pelo vandalismo, mas ainda imponentes
Cada carro que passava era um milagre a ser comemorado, com efusivos polegares inclinados em pedido de carona, juntamento com as placas levantadas.
Reconstituição da cena

Após algumas tentativas, enfim, a carona apareceu! Era o simpático Sr. João, que a bordo de seu carro, levava-nos serra acima, passando por curvas sinuosas e trechos originais da estrada, preservados pela recente pavimentação.

Nosso motorista, morador antigo do lugar, contava-nos causos interessantes sobre nosso destino, além de teorias da conspiração sobre Getúlio Vargas e suas atitudes que culminaram na destruição de São João Marcos.

Alguns minutos depois, vencíamos a primeira etapa e descíamos no alto da Serra do Piloto, cruzando a pé o limite entre Mangaratiba e Rio Claro. Rodrigo ainda não acreditava no que havia feito. A princípio, assustado com a ideia de pegar carona com um desconhecido, até que se saiu bem em sua primeira experiência. Mas não seria a única...

Ainda faltavam alguns quilômetros até a entrada do Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos. Mesmo com a timidez do Rodrigo, não hesitamos em ficar na beira da estrada e pedirmos mais uma carona, que veio bem rápida desta vez. Quem nos acompanhou pelos 6 km restantes foi um dos engenheiros responsáveis pela pavimentação da pista. Ele explicou-nos que aquele trecho já não fazia mais parte da Estrada Imperial, apesar de ser paralela a esta.
Em pouco tempo havíamos chegado! Não foi com pouca emoção que adentramos as portas do Parque, em direção a São João Marcos – ou pelo menos ao que sobrou da cidade. Ali, não respirávamos mais oxigênio, e sim história.
O desenvolvimento dos meios de transporte fez a cidade perder sua importância geográfica privilegiada, além dos problemas referentes à abolição da escravidão e a produção de café. Sua população foi reduzida para menos da metade no início do século XX. Igrejas, clubes, pensões e teatros, antes lotados, agora ficavam às moscas. Perdendo o status de município, São João Marco regrediu e viu-se reduzida a um distrito de Rio Claro (RJ).

Na época, terrenos foram desapropriados; demolições e explosões devastaram a cidade, que seria inundada. Segundo o Sr. João, nosso primeiro caroneiro, tudo não passou de uma questão de interesses pessoais de Getúlio Vargas e os assuntos escusos de seu cunhado que vivia no Canadá, país de origem da companhia responsável pela represa. Seja lá o que tenha ocorrido, o estrago estava feito. E o pior de tudo: em vão. Os cálculos estavam errados, e a represa jamais chegou a alagar a cidade. Não havia justificativa para a perda humana, ambiental e histórica de São João Marcos.


Caso tivesse sua arquitetura preservada, São João Marcos poderia hoje em dia certamente concorrer de igual para igual com Paraty, como importante polo turístico e cultural. Ainda assim, com a criação do Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos em 2011, muita coisa vem sendo recuperada. São ao todo 33 mil m² que estão recebendo atenção do Instituto Light – responsáveis pela criação do parque – e do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB), pioneiros no Brasil na recuperação arqueológica de uma cidade inteira.
O Parque possui uma grande infraestrutura, como o Centro de Memória que, com ares de museu, dispõe de vários artefatos encontrados na região nas diversas escavações já feitas, além de muitas fotos, painéis e uma maquete que ilustra bem a grandeza de São João Marcos enquanto cidade. Também conta com um anfiteatro e uma lanchonete.
Quando de fato chegamos no Parque – há uma distância de 2 km a ser percorrida dos portões de entrada até o início do parque em si -, o Centro de Memória estava fechado, pois era dia de manutenção. Conseguimos convencer os funcionários a nos deixarem entrar, o que colaborou para o caráter único de nossa experiência.
Ainda tivemos a oportunidade de passear pelas ruas, ver onde era a praça, a capela e a prefeitura. Foi uma sensação indescritível, bela e ao mesmo tempo tão triste e cheia de significados. Afinal, o que fizemos em nome do progresso?
É uma pena que, a despeito de todos os esforços, São João Marcos só possa ser totalmente sentida com a imaginação.
Nem a igreja da cidade escapou da destruição

A hora ia passando e planejávamos o nosso próximo destino, Lídice, outro distrito de Rio Claro, criado em homenagem a uma cidade da República Tcheca que durante a Segunda Guerra Mundial foi vítima de um massacre de toda sua população pelos nazistas.

Enquanto adaptávamos nossos planos, preparando a próxima plaquinha de carona para o centro de Rio Claro, fomos ajudados pelos funcionários do local, em especial o Sr. Nei, responsável pelo parque que prontamente nos ofereceu carona, sem nem mesmo pedirmos. É claro que aceitamos!
 Confecção das plaquinhas de carona, uma lição internacional
Já no carro do sr. Nei, prontos para a carona até Rio Claro. Repare na bolsa com a bicicleta dobrável dentro, um "pequeno" incômodo compartilhado com todos que durou a viagem inteira.

Instalamos-nos no banco de trás do carro, não tão confortáveis, mas imensamente felizes pelo modo de como as coisas estavam ocorrendo bem. Rodrigo estava menos temeroso, e com todos relaxados, seguimos 20 km à frente numa linda viagem alternando entre lindos morros de pastagem e frações de mata atlântica preservada, com seus cheiros e sons característicos.

A conversa com o Sr. Nei foi produtiva. Foi uma surpresa saber que as escavações continuam em andamento, e que ainda há muita coisa a ser descoberta – como por exemplo, uma antiga fábrica de tecidos nas proximidades do parque, onde muitos marcossenses trabalhavam.

O Sr. Nei pareceu-nos uma dessas pessoas que são realizadas na vida, pois trabalham naquilo que realmente gostam. Sua alegria em descrever seu trabalho, e de como recebe os vários grupos de estudantes dos municípios vizinhos era contagiante. Em média, 200 crianças por semana. Só no último dia, havia recebido 90 crianças do Morro do Alemão. Falou-nos também sobre a forte emoção dos antigos habitantes da cidade ao visitarem o parque, o quão tocante isso é.

Conversando, a viagem passou rápido, e logo estávamos no centro de Rio Claro.

Rio Claro se apresentou muito bem cuidada, pacata e limpa, como toda cidadezinha do interior. Chegamos a entrar no Centro Cultural mas, ao contrário do que imaginávamos, o acervo é bem fraco e pouco tem a ver com a cidade ou coisas relativas a ela, o que é uma pena.

Pegamos então um ônibus para descer um pouco a serra, do lado oposto ao que viemos, rumo a Lídice. Já na condução pudemos deslumbrar as belezas naturais dessa região, muito fresca e arborizada, e nem mesmo a chuva que caiu enquanto estávamos no trajeto nos assustou. Lídice então surgiu, ainda mais pacata do que Rio Claro, mas com uma personalidade forte e cativante.
Hora de aliviar um pouco o peso da bolsa da bicicleta que carregávamos nos ombros. Desdobrei e a coloquei para rodar, para facilitar nossa mobilidade.
A Lídice original, na República Tcheca, foi completamente dizimada por um ato de vingança irracional dos nazistas, em represália a um atentado em que moradores da cidade tiveram participação. Mataram todos os homens de Lídice, encaminharam as mulheres para campos de concentração e as crianças para reformatórios. Insatisfeitos, mudaram o curso do rio e aterraram a cidade, que sumiu do mapa. No fim da Guerra, os países aliados decidiram homenagear as vítimas, dando o nome de Lídice a uma de suas cidades. E assim, a antiga Santo Antônio do Capivari, em Rio Claro, tornou-se “Lídice”, com direito a um monumento de uma Fênix (“A ave que renasce das cinzas”) e um Centro Cultural onde há quadros e exposições do país do Leste Europeu. Não pudemos conhecê-lo, pois estava fechado para reformas.

Após um dia cheio de emoções e novos conhecimentos, era hora de fazer a viagem de volta pra casa. O ônibus iria demorar a passar, e ainda assim, tinha uma tarifa proibitiva para os nossos padrões. Buscamos carona novamente na estrada, onde fomos bem atendidos pelo Sr. João (sim, outro!), que em posse de seu Monza azul escuro guiou-nos pacientemente por mais de uma hora pelas típicas chuvas da Serra d’Água.

Entre muita névoa através do túneis de paralelepípedos e rocha bruta, o Sr. João, legítimo cidadão angrense e bom conhecedor da desordem urbana e ambiental de sua terra, lamentava o fato de nunca ter ido à Ilha Grande. Ele ainda parou no meio do caminho em uma lanchonete de estrada, oferecendo-nos uma Coca-Cola geladíssima e biscoito de polvilho, dos quais recusou veementemente qualquer pagamento. Sr. João é ídolo!

Descemos, enfim, em Angra, onde pegaríamos um ônibus para Mangaratiba e de lá então de volta para casa. Não éramos mais os mesmos. Após um banho não só de história  mas também de vivência social, despojamo-nos de todos os preconceitos em relação às caronas. Era necessário ver a sociedade de outro modo, como organismo vivo que atua diretamente sobre seu território. E o que queremos para esse território?

Dali em diante, sabíamos que não poderíamos mais ser turistas, visitantes ou excursionistas. Éramos viajantes, porém nativos; residentes do planeta Terra, cujo souvenir mais valioso que poderíamos obter é a cultura e informação.

Ah, e a amizade também. O nosso tímido amigo Rodrigo gostou da experiência.