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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Pedalando pela Região dos Lagos (RJ)

Pois é, o mundo não acabou no dia 21 de Dezembro.

Logo, o que fazer no dia 22/12/2012? Pedalar, é claro!

E lá fomos nós, eu e minha esposa, rumo à Maricá (o "Portal da Costa do Sol"), de onde faríamos, em 3 dias, aproximadamente 110 km cruzando as cidades de Saquarema, Araruama, Arraial do Cabo e Cabo Frio, pedalando pelas desertas estradinhas de terra que beiram a orla do caminho.


A Região dos Lagos é famosa não só pelas suas belas praias lacustres, como também pelo azul cristalino de seu mar. Não raramente, a região é referida como "o Caribe brasileiro". Há quem compare as suas praias com as da Grécia e da França. Será mesmo? Fomos conferir!

O sol nem sequer havia dado as caras e já estávamos no ônibus que partia do Rio de Janeiro até Maricá. As nossas bicicletas, Blitz City aro 20, dobráveis, já estavam na mala da condução, devidamente dobradas.


O ônibus que liga as duas cidades, distantes 60 km uma da outra, custa R$11, mas se você tem o Bilhete Único Carioca, a passagem sai por R$4,95. Veja os horários aqui.

Por volta das 9h, chegamos no simpático Terminal Rodoviário de Maricá. A primeira providência foi encher a garrafinha de água no bebedouro. Como você vai ver em nosso relato, água potável é um problema sério na região. 


Em poucos minutos pedalamos os 4 km que separavam o centro da cidade da praia mais próxima, a Praia da Barra. Dali, seguiríamos o caminho da estradinha de terra que vai beirando a praia e que, supostamente, nos levaria adiante.


Vi um senhor regando as plantas do quintal de sua casa em frente à praia e pedi educadamente que enchesse nossas garrafinhas. Em um tom quase grosseiro, o homem negou-se a nos oferecer água. "Essa água é de poço, salobra pra diabo!". E continuou a regar suas plantas, sem fazer menção de, talvez, pegar em casa.

Que saudades da Costa Verde e dos caminhos da Rio-Santos, onde a água brota das pedras, onde em qualquer casinha um caiçara simpático tem sempre uma boa prosa e um copo d'água pra oferecer. A Região dos Lagos, ao menos nessa parte, perde feio. Seus moradores, quase sempre oriundos da região metropolitana do Rio de Janeiro, possuem lá suas casas de veraneio, onde passam feriados e finais de semana, eventualmente alugando-as para algum incauto a troco de uma pequena fortuna.

Poderia ser cedo demais, mas defini naquela hora meu conceito sobre a região: Nada de pescadores, quilombolas ou caiçaras integrados ao ambiente. Aqui, há apenas uma classe média que apossou-se de áreas de restinga e, nas horas vagas, apenas "consome" a paisagem, em suas mais diversas maneiras.

Viagem que segue, lá vamos nós pedalando e descobrindo que a estradinha de terra não é contínua... ora ela vira pura areia da praia, ora deixa simplesmente de existir. Nesse momento, o ideal é partir para a Av. Central e seguir os caminhos do asfalto.

Nas proximidades da Praia do Cordeirinho, uma parada estratégica para comprar frutas e um delicioso açaí. Pedi por água mais uma vez, agora para a dona do estabelecimento que me vendera os produtos. Não foi com muita surpresa que acompanhei sua reação: Meio desnorteada, apanhou uma garrafinha de água mineral do estoque e despejou no meu squeeze. Não era bem o que esperava, mas ela não cobrou e então agradeci e segui viagem. Foi aí que percebi que, com exceção de alguns poucos carros, boa parte do movimento da estrada era composto por caminhões pipa. Interessante ver tantas casas bonitas, localizadas em ruas esburacadas e dependendo de fontes não-naturais de água.

Mas a região é bela, e quanto menos interferência humana, mas linda vai ficando. Já havíamos pedalados bons quilômetros planos e encarando trechos de praia deserta. Resolvi entrar na água pela primeira vez e quase congelei. A água é realmente fria, meus pés arroxearam ao entrar nas águas agitadas daquele mar, próximo à Ponta Negra.


Chegando ao final de Maricá, na Praia de Ponta Negra, algo impensável: Uma multidão se espremendo, entre cadeiras e guardas-sois, mesmo com quilômetros de praias desertas, contínuas, logo ali ao lado. Parece que o povo gosta mesmo de uma aglomeração.


Ponta Negra - que bem que poderia se chamar "Ponta Fria" - nos reservava ainda outras interessantes atrações, como por exemplo o seu famoso Canal. Dependendo do seu ângulo de visão, o canal aparenta ser algo bem próximo aos cânions encontrados na região nordeste brasileira.



Seguimos pedalando e Ponta Negra vai ficando para trás. Através de um pequeno atalho pela Estrada Velha de Jaconé, economizamos alguns quilômetros caso optássemos por seguir pela estrada asfaltada até a Praia de Jaconé, já em Saquarema. O pequeno caminho apresentava as primeiras subidas do percurso, mas nada alarmante.

Em poucos minutos, surgia Jaconé, um lugar que eu ansiava muito para conhecer.



Explico a razão da minha curiosidade pelo local: Foi aqui, lá pelos idos de 1832 que o surfista Charles Darwin, então com 23 anos, resolveu pegar uma onda na Praia de Jaconé, e acabou deparando-se com as beachrocks, umas pedras que a princípio ele confundiu com crack, mas logo viu que tratava-se de um interessante patrimônio geológico, uma vez que são exemplos das remotas eras em que ainda estávamos ligados geograficamente à África.


Ok, minha versão sobre como Darwin conheceu Jaconé não é muito oficial, existem outras. A questão é que eu realmente queria conhecer o local, tocar nas pedras, dar um mergulho. E fui correndo até lá!



A paisagem é belíssima, e sua importância biológica, histórica e cultural é imensa. Uma pena que a construção de um porto ameaça seriamente a existência dessas pedras e a sustentabilidade da comunidade local.




Etapa realizada, hora de continuar pedalando pela estrada de barro que agora, pela primeira vez, alargava-se bastante e começava a apresentar os primeiros excessos de terra que nos faria atolar diversas vezes.


Ao menor sinal de atolamento, a solução é uma só: Esvazie um pouco o pneu. Assim, o atrito com o chão fica maior e a possibilidade de atolar - e consequentemente cair da bicicleta - é menor.

Pouco a pouco, fomos chegando em uma parte da Praia de Jaconé com algum comércio. Já passava das 13h30, e resolvemos dar uma parada para almoçar, num simpático restaurante que oferecia um delicioso prato de Contra Filé com Fritas, por R$14. As porções eram generosas e mesmo dividindo a refeição, tivemos dificuldade em comer tudo.


A câmara de uma das bicicletas apresentou um vazamento. Enquanto eu a consertava ali mesmo, Carol resolveu tirar uma soneca na praia.


Fomos sair de lá só por volta das 15h30, já bem alimentados e com combustível suficiente para alcançar o destino do dia: Saquarema.

Pelo caminho, diversos bares que pareciam vender todo tipo de bebida, menos água. Não há água, mas há H2OH! Alguns moradores locais passam pela gente, pedalando. Muitos com galões de 20 litros do precioso líquido amarrados no bagageiro.


O asfalto voltou a aparecer e em poucos quilômetros, já avistávamos a Igreja Nossa Senhora de Nazareth, símbolo de Saquarema. Um imponente templo situado no alto de um morro e rodeado pelo mar, visível a distância.


Tão logo chegamos na cidade (um pouco mais tarde do que o previsto), começamos a buscar um camping para ficar. E foi essa nossa primeira decepção com Saquarema: Uma cidade famosa por ser "A Capital do Surf Brasileiro", acostumada a receber o público mais jovem/aventureiro, não tinha sequer um camping ou até mesmo um hostel por perto.

Confesso que, acostumado com a atmosfera roots de Ilha Grande, me surpreendi negativamente com o clima elitista de Saquarema. Será que eu tinha chegado em Búzios e não sabia? Foi necessário pedalar mais uns 4 km para chegar no único camping da cidade, bem mediano, relativamente caro (R$20 por pessoa) e completamente afastado do centro da cidade e das principais atrações. 

Resultado: Já era noite quando pudemos, enfim, sair do camping através de uma estrada mal iluminada e poder conhecer um pouco mais da cidade.


Apesar do caminho sombrio, chegamos bem na praça principal da cidade, próximo a ponte que liga a Praia da Vila à Praia de Itaúna. Lanchamos em uma interessante feirinha noturna e aproveitamos para conhecer a Igreja, que de noite, ganha uma iluminação especial e fica muito bonita.



No fundo da Igreja há um cemitério, único do Brasil projetado sobre o mar. Apesar de sinistro, vale a pena visitar o local.


Antes das 23h já estávamos alojados novamente no camping, prontos para uma boa noite de sono.

23/12/2012


O dia enfim amanhece, e da janela da barraca - que também é dobrável - consigo ver as bicicletas aguardando-nos para mais um dia que prometia! A ideia era passar pelas praias de Itaúna e Vilatur, ainda em Saquarema, e depois seguir rumo à Praia Seca, já em Araruama, onde encontraríamos meu amigo Pedro Bravo e de lá seguiríamos para Monte Alto, em Arraial do Cabo. 

Agradecemos ao dono do camping e seguimos, mais uma vez, em direção ao Centro de Saquarema, para atravessar a ponte e visitar a Praia de Itaúna, conhecida como o "Maracanã do Surf".


Não há estrada que beire a orla, para visualizar a praia é necessário entrar em alguma esquina da Av. Ocêanica. Uma bonita visão do outro lado da Igreja apresenta-se e o barulho das ondas é bem forte. Dentro d'água, poucos se arriscavam, apenas os surfistas.


A praia é gigante e vai seguindo seu caminho ininterruptamente. Voltamos à Avenida, seguindo em frente. O remendo do dia anterior parecia não ter surtido efeito e volta e meia tínhamos de parar para calibrar o pneu.


Buscando sempre pedalar o mais próximo da orla, uma hora a estrada acaba e vira uma trilha arenosa. Tentamos seguir por outro caminho, mas entre diversas subidas de chão de barro, acabamos nos perdendo feio e distanciando-nos muito do mar. Com certo esforço, voltamos. A solução seria enfrentar os 3 km da Praia da Reserva de Vilatur, arrastando a bicicleta pela areia mesmo.


E que caminho lindo teríamos pela frente! A praia seria só nossa, com seu mar azul e areias branquíssimas. As ondas eram tão fortes que, mesmo a uns 30 metros de distância, sentíamos os respingos das gotas d'água.



Pneus novamente esvaziados, para facilitar o transporte, íamos carregando as bicicletas naquela linda paisagem, sem sentir o peso da "bagagem", uma vez que o lugar era tão bonito que nos extasiava com sua beleza.


Já chegando próximo ao fim da reserva, avistamos uma estrada de terra. Seguindo por ela, saímos da área do Parque Estadual da Costa do Sol.


Infelizmente, a partir daí, teríamos uma série de contratempos que culminaria no término prematuro da viagem. Deveríamos ter seguido pela Estrada da Praia Seca, mas nos perdemos e quase fomos parar na movimentada Rodovia Amaral Peixoto, a quase 9 km do caminho certo!

Para piorar a situação, a câmara de uma das bicicletas não estava muito boa e quando fui enchê-la a bomba quebrou! Era domingo, estávamos no meio do nada... não havia muito o que fazer. Dobramos a bicicleta e esperamos por uma solução, que chegou logo: Um ônibus que seguia para o distrito de Bacaxá, em Saquarema.

Custando apenas R$2,50, o ônibus logo nos deixou no Terminal Rodoviário do distrito, onde haviam ônibus de hora em hora para Cabo Frio. Pegamos esse outro ônibus, da Auto Viação Salineira. Custou-nos R$3,80, mas pelo trajeto (que passa por dentro de Araruama, Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia, até chegar em Cabo Frio), valeu muito a pena, e pode ser uma excelente opção para quem deseje chegar até a região baldeando, sem se preocupar muito com o tempo da viagem.

Como chegar em Cabo Frio já fazia parte de nossos planos (seria o destino do nosso último dia), apenas adiantamos as coisas. Ficamos na casa de parentes da minha esposa e aproveitamos para ir à Arraial do Cabo, conhecer suas belas praias e fazer um passeio de barco. 


O passeio tem preço tabelado, as embarcações cobram R$40 por pessoa, mas negociamos e o valor caiu para R$50 o casal. Vale a pena, não só pela cortesia de água e refrigerante (haha!), mas também pelo visual das praias de um azul cristalino, mais azul do que o céu. Destaque para a Ilha do Farol e suas dunas, considerada a praia mais perfeita do Brasil.





Se um dia passar por essas bandas, não deixe de conhecer Arraial do Cabo e suas belas praias: Atalaia, Prainha, Praia dos Anjos, Praia Grande e, é claro, a Ilha do Farol.


E assim finalizamos nossa viagem - por enquanto. Não engolimos essa história de abortar uma viagem por conta de uma bomba quebrada. Vamos melhorar a qualidade de nossos equipamentos e, um dia, refazer essa viagem,  sem deixar de conhecer as praias lacustres de Araruama, que ficamos devendo dessa vez. Lugares como a Praia Seca, Arubinha, Ponta dos Pneus, Massambaba e Monte Alto merecem ser visitados.



Até breve, Região dos Lagos!

domingo, 29 de julho de 2012

Volta a Pé Frustrada em Ilha Grande (RJ)

Leia também: A Volta a Pé Bem-Sucedida em Ilha Grande!

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Há quem diga que Fernando de Noronha é um lugar paradisíaco. Planejam uma longa viagem, pagam valores exorbitantes de passagem, hospedagem, além das taxas de conservação e tudo o mais.

E há simplesmente quem resolva pegar uma barca de R$4,50 e, através de trilhas íngremes e arborizadas, conhecer o verdadeiro paraíso: Ilha Grande.


A Ilha, localizada no maltratado município de Angra dos Reis, possui uma exuberância natural que deixa qualquer um emocionado.

Minha primeira incursão à essa terra abençoada deu-se em janeiro de 2012. Saí de casa com minha esposa rumo à Mangaratiba, cidade vizinha de Angra dos Reis. De lá, também há um terminal de barcas que nos leva até a Ilha, em uma viagem de aproximadamente 80 minutos.

Saímos em um feriado, data típica em que eu opto sempre por não viajar, justamente por não gostar de tumultos. Ao chegar no terminal de barcas, vi o que já imaginava: Uma fila gigantesca, de centenas de metros, com milhares de pessoas serpenteando. O nervosismo tomou conta de mim e por muito pouco não desisti da viagem. Imaginei não ser possível alocar toda aquela multidão em uma só embarcação. Por sorte, a empresa concessionária desse meio de transporte resolveu disponibilizar uma barca extra.

O ponto de chegada das barcas em Ilha Grande é na Vila do Abraão, o "centro" da Ilha. Um típico vilarejo de pescadores que cresceu juntamente com a exploração turística, mas que nem por isso perdeu suas características naturais: simplicidade e acolhimento.

Ainda assim, optamos por não ficarmos ali. A praia da Vila é bonita, mas não chama a atenção. As pousadas e hotéis espalhados juntamente com as lojas eram um bom sinal de que não estávamos completamente isolados do mundo; mas queríamos justamente nos afastar de tudo.

Deixamos a horda de gente no centro e, decididos a acampar, fomos para o Camping Acorde, (diária de R$35,00 - casal). O camping localiza-se na Praia de Palmas, à aproximadamente uma hora de distância da Vila do Abraão. Acessível por trilha ou boat taxi, Palmas representava tudo que poderíamos querer:  Com bem menos infraestrutura do que a Vila, mas com o mínimo de conforto e algumas opções de alimentação e hospedagem, o local era "o outro lado" da Ilha, sem tanta agitação e desenvolvimento.
Nos dois dias que ali ficamos, apaixonei-me por Ilha Grande. Sua natureza, seu povo, suas belas praias... Através das trilhas, quase levei minha esposa à exaustão rumo às lindas praias de Lopes Mendes, e Santo Antônio.


Em Lopes Mendes, mesmo com um certo movimento de pessoas no início da praia, os seus 3km de extensão vão diluindo a quantidade de pessoas que se espalham sobre ela. Sua areia branca e fofa em conjunto com suas ondas de água cristalina são belíssimas, mas não há quem resista à uma soneca quando se chega lá. Afinal, de Palmas até Lopes Mendes são mais algumas horas de trilha.

 Adoramos.

Entretanto, aquela viagem não terminou por ali. Como toda boa viagem que a gente faz, os trajetos, paisagens e lembranças ficam martelando na nossa cabeça. Eu precisava voltar.

Enquanto não voltava, pesquisava diariamente sobre Ilha Grande. E logo descobri diversos relatos de aventureiros que resolveram dar a volta à pé na ilha. Que ideia fabulosa! Não via a hora de fazê-lo também.

Poucos meses depois, em Abril, aproveitei que meu amigo Pedro estava de férias do trabalho e consegui convencê-lo a entrar de cabeça comigo nessa arriscada aventura.

A ideia: Uma volta a pé na Ilha Grande, em cinco dias, acampando e cozinhando com o fogareiro, gastando o mínimo e divertindo-se o máximo.


Munidos de um mapa detalhado da ilha, planejávamos nossa trilha da seguinte maneira:

1º Dia - Vila do Abraão > Palmas > Lopes Mendes > Santo Antônio
2º Dia - Caxadaço > Dois Rios > Parnaioca
3º Dia - Praia do Leste > Sul > Aventureiro > Provetá > Araçatiba
4º Dia - Ubatubinha > Bananal > Japariz > Saco do Céu > Abraão
5º Dia - Tiraríamos como uma dia extra, caso atrasássemos em algumas das trilhas anteriores. Se tudo ocorresse bem, subiríamos o Pico do Papagaio.

Parece simples, não é?

Mas uma sucessão de erros e falta de planejamento de nossa parte fez tudo ir por água abaixo. Subestimamos - e muito! - as dificuldades das trilhas, seus acessos e nossos meios de manutenção.

O inferno começou logo ao sairmos da barca e pisarmos nossos pés no solo de Ilha Grande. A mochila de Pedro, recém comprada, mostrou-se mais vagabunda do que já aparentava ser. A alça arrebentou e tivemos que ficar um bom tempo na Vila do Abraão para costurá-la.

Costuramos, seguimos em frente e... de novo, arrebentou. Mais um rápido remendo e... mais uma vez, caiu. Estava complicado. Seguimos a trilha em direção a Palmas, que nem é tão complicada assim, mas logo sentimos a dificuldade em seguir em frente com nossas mochilas pesadíssimas. Cada um devia estar carregando por volta de 12 a 15kg de bagagem, o que mostrou-se completamente inviável.

Chegando a Palmas, paramos um pouco. Estava bem mais vazia do que no feriado. Um senhor se aproximou e nos ofereceu um serviço de camping por R$10, com chuveiro quente e cozinha. Tentador, estávamos realmente cansados. Mas não, não iríamos parar ali. Com um pouco de energia que nos restava, seguimos em frente, passando por outras praias menos conhecidas da ilha até passar pela entrada da Praia de Santo Antônio.
Santo Antônio seria, então, nosso destino no primeiro dia. Ainda faltavam algumas horas para o dia terminar, então seguimos em frente a trilha, sem entrar na bifurcação. Logo chegávamos à bela praia de Lopes Mendes, onde finalmente tiramos as pesadas mochilas das costas e nos permitimos dar um mergulho.

Mergulho dado, alma lavada. Hora de subir a trilha antes do anoitecer, para garantir nosso lugar no primeiro camping selvagem de nossas vidas.
A trilha de Lopes Mendes é muito boa e tranquila, mas a partir da bifurcação para Santo Antônio, a coisa piora um pouco. O caminho se estreita, fica mais íngreme e com ângulos mais difíceis de se posicionar.

A despeito de tudo isso, chegamos na praia, que como de praxe estava vazia. Era um excelente lugar para acampar!
Mal havíamos montado a barraca e a noite caiu.
 É difícil definir "noite" em um ambiente praiano e aberto como aquele. A luz iluminava de tal maneira que, mesmo às 20h, parecíamos estar sob um dia claro de manhã.
Com a barriga roncando, resolvemos enfim dar cabo a alguns exemplares de macarrão instantâneo e biscoitos que carregávamos nas mochilas. Acredite, queríamos passar 5 dias embrenhados no mato sobrevivendo de miojo e doces. Nossa inocência era de dar pena...

A noite não foi das melhores. Pedro, dizendo-se com calor, não queria fechar a cortina da barraca. E eu, provavelmente temendo o bicho-papão, não queria dormir de jeito nenhum com a barraca aberta. Dormimos um sono polifásico bem esquisito, e às 05h já estávamos de pé, desmontando a barraca e guardando tudo na mochila. "Acordamos vivos", pensamos.

Daí então o legado de nossa miséria apresentou-se. Em busca da trilha que ligaria Santo Antônio até a Praia do Caxadaço, entramos por caminhos esquisitos e trilhas inexistentes no meio da mata. A mochila do Pedro não parava de arrebentar. 10 horas, meio-dia, duas da tarde... o tempo passando e sequer tínhamos noção de onde estávamos.

Onde estava o sol? A vegetação densa cobria tudo ao nosso redor e acima de nós - às vezes, dentro da gente, com os espinhos de algumas plantas cortando nossa pele. Por onde quer que olhássemos, não havia caminho. Em uma hora, devemos ter avançado 20 metros, se muito. Em uma tentativa desesperada de raciocínio, que àquela hora já era lento pela falta de água e privação de descanso, pensei em fazer alguma sinalização com fogo em busca de um possível resgate.  Pedro, mais calmo, buscava algum sinal familiar naquele inferno verde que pudesse nos fazer voltar ao caminho de origem.

Vi um pequeno córrego com uma água de coloração nada agradável, mas que logo serviu-nos para matar a sede. Imaginei que, caso seguíssemos seu curso, poderíamos sair em algum lugar - quem sabe, até mesmo na praia! Ledo engano.

Após nos arrastarmos entre espinhos e pedras, fiz uma espécie de rapel usando um cipó para descer uma pedra de 3 metros até um declive onde o curso da água seguia. De repente o caminho ficou mais amplo, menos denso, e resolvi ir correndo, já achando que encontraria algum vestígio de civilização por ali.

Parei bruscamente. Um passo a mais e eu estaria provavelmente morto. Na minha frente, disfarçado por uma árvore, havia um penhasco de pelo menos uns 50 metros de altura, que dava em direção a pedras que o mar, revoltoso, ia de encontro com toda fúria.

Voltei correndo na direção do Pedro, refiz o rapel (o medo de que o cipó arrebentasse não era maior do que a dor dos ferimentos eu eu acumulara até ali). E aí, então, quase desistimos.

Parados sob uma clareira, estávamos quase dormindo, pensando em passar a noite por ali mesmo, quem sabe caçar um tatu-bola, quando de repente Pedro reconheceu ao longe uma árvore peculiar que havíamos passado antes de nos perdermos. Imediatamente, demos um jeito de levantar e chegamos até lá. Reconheci o caminho. Seguindo às raras fitinhas vermelhas que os visitantes anteriores deixaram amarradas nas árvores, conseguimos chegar ao ponto exato em que havíamos nos descaminhado.

A razão de nossa desordem geográfica era uma árvore caída no meio de uma trilha. Estaríamos no caminho certo se tivéssemos pulado a árvore, mas resolvemos seguir pro lado, no que parecia ser uma bifurcação, mas que por final não nos levou a lugar algum.

Aliviados, abrimos com maior tranquilidade nosso suprimento de água (o pouco que restara até então) e um sanduíche. Era necessária recuperar as energias.
Não havia clima para seguir em frente - nem coragem. Retrocedemos, e logo chegamos ao caminho de Lopes Mendes. Era tarde, estávamos exaustos, com uma aparência lamentável. Mas merecíamos um mergulho.
O cansaço era tanto que quase dormimos em Lopes Mendes mesmo. Mas a lembrança de que naquela área existem jacarés nos fez desistir da ideia. 

Seguimos, aos troncos e barrancos, em direção a Palmas. Precisávamos de um banho, e isso algum camping poderia nos oferecer. Logo na descida da pedra que dá acesso a praia de Palmas, vimos o Bar e Camping Palmas, onde haviam nos oferecido no dia anterior, por apenas R$10, tudo o que precisávamos para ter uma boa noite de sono.

Após um belo banho e um miojo (acho que nunca mais comi miojo depois dessa viagem...), deitamos na barraca e dormimos uma noite espetacularmente confortável, depois de tudo que passamos naquele dia.

No outro dia, pela manhã, decidimos que iríamos embora de tarde, pegando a barca das 17h30 pra casa.
Mas bastou sentarmos em frente ao quintal do camping para abandonarmos de vez esta ideia.

A brisa que vinha do mar nos entorpeceu, e a água do mar da Praia de Palmas agiu como um verdadeiro tranquilizante e cicatrizador para a pele.

Aproveitamos para conhecer um pouco mais dos poucos vizinhos que tínhamos no camping. Um casal de argentinos, duas alemãs e uma simpática senhora de Nova Friburgo que havia abandonado tudo em casa e estava hospedada no camping, desde o carnaval, aproveitando a vida. 

O ambiente era tão acolhedor que ficamos receosos de seria o nosso caso querer ficar lá pra sempre também. Melhor não arriscar. "Vamos embora amanhã!", decidimos. Falamos com o simpático sr. Mario, responsável pelo local, e garantimos mais uma diária.

Com um dia dedicado inteiramente ao ócio, ainda tivemos gana de ir a Lopes Mendes pela terceira vez - aquela praia realmente havia nos conquistado.

Logo o último dia chegou. Quem disse que queríamos abandonar aquelas lindas praias, os amigos que ali fizemos, a feijoada que filamos e todas as experiências - mesmo as ruins - que vivemos?

Arrumamos nossas coisas, tristes, mas conscientes de que devíamos voltar pra casa. Há 3 dias que não demos nenhum sinal de vida aos nossos familiares.

A trilha de volta ao Abraão pareceu-nos a subida do Everest. Cansávamos a cada passo, com uma fadiga acumulada que demorou semanas para ser curada. Chegamos na Vila e ainda tivemos tempo de passear um pouco pelas ruas cheias de gente, restaurantes e hóteis do lugar.

A barca chegou e tivemos o privilégio de acompanhar o pôr-do-sol de um lado da embarcação e o esplendor da lua cheia do outro. Uma visão linda, que marcou a mim e a todos os que estavam na barca, que empoleiravam-se nas janelas a fim de contemplar o show que a natureza resolveu nos dar naquele dia.

É bem verdade que fracassamos em nossa tentativa de dar a volta a Ilha. Não planejamos direito, mas valeu a experiência. Não desisti de tentar, em breve, mais uma volta à ilha - desta vez, mais consciente das surpresas que podem acontecer no caminho.

Seja como for, aquela manhã em que acordamos após um dia de extremo cansaço e sentamos nas cadeiras de praia em frente ao mar jamais sairá da minha cabeça. Aquela temperatura amena, o vento gostoso na cara, o balanço das folhas e o esquilo que subia a árvore tranquilamente tiveram um impacto muito forte sobre mim.

I'll be back.