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sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Esse Blog Acabou! Ou Quase Isso...

Comecei esse blog meio que ao acaso.

Sempre que eu falava sobre minhas viagens de bicicleta e trilhas, logo as pessoas pediam para ver as fotos.  Com o tempo, mais gente foi ficando interessada em saber todos os detalhes das minhas aventuras e foi ficando complicado narrar a mesma história toda hora. Os amigos insistiam para que eu criasse um blog.



Recebi o ultimato do meu ex-chefe (!), que falou: "Cria logo esse blog, rapaz!". Por livre e espontânea pressão, acessei o Blogspot e batizei meu diário virtual com o primeiro nome que me veio à mente: Bicicleta & Etc.

Além de conhecer a minha história com as bicicletas (que até rendeu uma matéria de revista), relatei aqui também o como abandonei o sedentarismo graças às trilhas em meio a natureza. De gordinho que se cansava rápido à cicloviajante, foi uma evolução e tanto! Quem diria, foi pedalando que conheci as praias mais afastadas do Rio, as curvas da Rio-Santos e até cheguei à Ubatuba saindo do Rio, em uma viagem de mais de 200 km!

Também foi desafiante fazer uma verdadeira pedalada investigativa até o município de Seropédica e registrar os crimes ambientais ali cometidos. Em busca de diversão, exploramos juntos a Ilha de Paquetá, o Vale do Café e a Região dos Lagos, sendo esta última visitada não uma nem duas, mas três vezes!

Entre micos e férias inesquecíveis, ainda deu tempo de pegar carona na História e conhecer lindos lugares, ilhas paradisíacas e praias selvagens, bem como acampar e passar por muitos perrenguesMas talvez nenhuma saga tenha sido tão desejada do que a volta a pé na Ilha Grande - do fracasso ao sucesso, enfim conseguimos!

E por falar em Ilha Grande, na Costa Verde do Rio, não medi esforços em demonstrar todo meu amor por essa região: Desde o relato da minha lua-de-mel até as melhores dicas da Flip e de Trindade, aproveitei para fazer algo que gostei muito: um Guia de viagem para pão-duros de Paraty!

Em 2013, esse humilde blog ampliou seus horizontes e viajou para lugares ainda mais longes! De São Paulo ao Espírito Santo, passamos também pelo norte do Brasil, em Roraima, onde chegamos ao auge da loucura: De dentro de um porta-malas, atravessamos ilegalmente uma fronteira internacional! Era hora de apresentar o Guia politicamente incorreto da Guiana, esse instigante país.

Mas, e então? Depois de mais de 21.000 visitas, dezenas de posts, amizades feitas e dicas compartilhadas, tudo isso, o blog simplesmente vai... acabar?

Quase isso. Na verdade, acredito que vamos evoluir consideravelmente. Deixaremos o Brasil e vamos DAR A VOLTA AO MUNDO!


Você não leu errado. Eu e Carol, minha esposa, vamos sair do Brasil no dia 26 de Janeiro de 2014 rumo ao desconhecido: Serão culturas, línguas, países e continentes diferentes que iremos enfrentar!

Por isso, criamos um novo blog, onde contamos melhor nosso roteiro de viagem, motivações e tudo que um diário de bordo precisa para registrar uma viagem como essa:

Acesse OsIncomodadosQueSeMudem.com para ficar a par das novidades, e não deixe de seguir nossa página do Facebook.

A todos os amigos e seguidores deste humilde blog, agradecemos a maravilhosa companhia de todos vocês. Continuem conosco: Ao invés de viajar na garupa de nossa bicicleta, agora vocês viajarão conosco através do nosso olhar :)

Muito obrigado!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Volta a Pé na Ilha Grande (RJ) - Conseguimos!

Que a Ilha Grande é um paraíso, todo mundo sabe. Por lá, existem diversos passeios de barco que levam a todos os cantos de suas mais de 113 praias. Mas por que não dar uma volta a pé na ilha por todas as suas trilhas, conhecendo com calma cada pedacinho?

Foi o que eu e meu amigo Pedro resolvemos fazer - e falhamos miseravelmente na primeira tentativa. Naquela época, nossos equipamentos eram péssimos, o preparo era pífio e os suprimentos se resumiam a Miojo. Para piorar a situação, ainda nos perdemos em uma das trilhas mais difíceis. A fadiga e a falta de ânimo nos fizeram abortar a missão e postergamos por muito tempo a nossa revanche contra a natureza.

Até que Pedro surgiu com algumas folgas inesperadas em sua escala de trabalho e, sem planejar nada, demos o veredicto: Vamos dar a volta a pé na Ilha Grande! De novo - mas dessa vez, com sucesso.

Nosso itinerário: Não passamos pela T10 e T11 dessa vez.

Além da realização de um antigo sonho, essa pequena jornada se caracterizou como uma das mais bem-sucedidas deste blog: Absolutamente tudo ocorreu bem, do início ao fim. Sem perrengues, apesar do improviso nas decisões, demoramos quatro dias para completar esse desafio.

1º Dia - Da Vila de Abraão à Bananal Pequeno (15,5 km)

Assim que entramos na barca rumo à Ilha Grande, no sábado pela manhã, nos demos conta da bobagem que fizemos: Toda sexta tem uma barca especial que chega à noite na ilha. Poderíamos ter ido nela e começar as trilhas já nas primeiras horas do dia. Como nos esquecemos disso, o jeito seria iniciar a caminhada a partir das 10h.

Sanduíche de sardinha: um mal necessário.

Chegamos pontualmente às 09h45 e seguimos direto pra T1, onde começa o Circuito do Abraão. Trilha manjadíssima, com as praias mais próximas ao centrinho, não vimos muita dificuldade nela - exceto um certo receio em relação aos fiscais do PEIG, que ficam por ali no pórtico de entrada da trilha. Diz a lenda que eles repreendem aqueles que tentam ingressar portando mochilas cargueiras, por conta da proibição de camping selvagem.


Optamos por passar pelo lado mais íngreme, que leva direto ao Aqueduto e não percorre a Praia Preta nem o Lazareto. Decisão acertada: Além de ser o caminho mais rápido até o início da T2, não enfrentamos nenhuma fiscalização.



Seguindo direto por essa trilha quase sempre plana e com belos mirantes, chegamos na entrada para a famosa Cachoeira da Feiticeira. Até então o clima estava bem ameno - as previsões indicavam entre 18ºC a 25ºC com sol encoberto para os próximos dias. Ainda assim, um pouco suados, resolvemos dar um mergulho na bela queda d'água.



De fácil acesso, a cachoeira realmente enfeitiça seus visitantes, que não sentem mais vontade de sair de lá - apesar da água congelante. Como ainda tínhamos muito caminho a percorrer, nos despedimos dela e seguimos em frente.


Chegamos a andar pela trilha da Praia da Feiticeira, mas como ela não dá acesso à continuidade da trilha, vimos que iríamos perder muito tempo indo e voltando pelo mesmo caminho. Deixamos pra próxima e continuamos pela T2 até esbarrar na paradisíaca Praia da Caramiranga.


Caramiranga tem uma água clara e uma faixa de areia minúscula. Me lembrou muito as praias de Búzios.



Bonitas mansões com quintais gigantescos e bem cuidados fazem parte da paisagem, juntamente com as diversas lanchas no mar, que impressionam.

É ou não é o paraíso?

Conforme íamos atravessando toda a sua extensão, a faixa de areia ia se estreitando ainda mais, conforme a restinga avançava para o mar. Em determinado momento o paraíso virou o inferno para Pedro, que teve seus sapatos ensopados involuntariamente pelas ondas do mar.


Conseguimos sair da praia sem molhar mais nada e pegar o restante da trilha. No caminho, um susto! Um movimento no caminho nos chamou a atenção, mas era apenas um lagarto gigante que mais parecia um dragão-de-Komodo.

Pelo menos não era uma cobra

A trilha até então continuava bem tranquila. Saindo da Enseada das Estrelas em direção ao Saco do Céu, acabamos nos desviando para um caminho um pouco mais obscuro, cheio de árvores caídas e galhos que impediam o caminho. Aliás, infelizmente boa parte das placas indicativas estão em péssimo estado de conservação na maioria das trilhas, o que pode confundir um pouco. Conseguimos sair a tempo e encontramos a descida correta que nos levaria ao vilarejo.

O caminho aqui é quase sempre plano, mais parecido com um beco do que uma trilha propriamente dita. As casas dessa região nem sempre são bonitas e seus tijolos aparentes dão um ar de favela que destoa da imagem que esperamos ver de uma área litorânea. 

Já estávamos andando há algum tempo e a fome começava a aparecer. Até que chegamos à uma pequena praia com um campo de futebol atrás, que nos pareceu o lugar ideal para fazer o almoço.


Arroz e feijão enlatado. Servido?

Com as energias recarregadas, andamos mais um pouco até chegar à decepcionante praia de Japariz. É aqui que os barcos de passeio fazem a parada para o almoço. Tirando os restaurantes, a praia não oferece nada demais, exceto aquela velha combinação adorada pelos brasileiros: mesinhas de bar na areia e música alta rolando. Com tanta praia bonita na Ilha Grande, chega a ser uma ofensa ter aquilo ali como atração. "Ou não", como disse o Pedro. Talvez seja melhor assim, as mais belas praias continuam intocadas. :)

Agora nos aproximávamos de Freguesia de Santana, uma praia linda e muito misteriosa...


Assim que chegamos nela, demos de cara com a Igreja de Santana, construída em 1796 e ainda imponente, apesar do tempo.



Infelizmente a capela estava fechada e não pudemos conhecer o seu interior. Em seus arredores, alguns túmulos em uma espécie de cemitério abandonado completavam o cenário. Assustador. Mas não mais do que os outros "adereços" do lugar:

Um corvo em cima da cruz?

Anjinho chorando (ou tirando meleca?)

A trilha T4 continuava por ali, logo atrás da igreja, e nos levaria até a Praia do Bananal. As horas da tarde iam passando depressa e os quilômetros caminhados já começavam a pesar. Nas proximidades havia uma escolinha também abandonada, que ponderamos se seria o lugar ideal para passarmos a noite. Optamos por andar mais um pouco e deixar aquele clima esquisitão pra trás - acharíamos um lugar melhor!

E não é que achamos mesmo?



Essa é a Praia do Bananal Pequeno, que é bem pequena, mesmo. Há por ali uma casa toda de vidro com um enorme quintal, além de um chuveirão bem em frente! Decidimos chamar pelo dono e pedir autorização para um banho e quem sabe um espaço para acampar, mas ninguém apareceu - exceto uns cachorros chatos que latiam sem parar. Decidimos então ao menos garantir o banho para amenizar o fedor que a atividade física excessiva nos impregnou.


Eu ainda pegava minha toalha na mochila enquanto Pedro tomava seu banho e o caseiro chegou. Digamos que ele não estava muito feliz por termos tomado a liberdade de ligar o chuveiro, mas logo entendeu nossas intenções e permitiu até que acampássemos em baixo da árvore em frente à casa.


O lugar era ótimo, já que por estarmos debaixo dos galhos cheios de folhas da árvore, ficávamos bem discretos da visualização de quem chegasse.


Cheios de sono, capotamos e só acordamos por volta da 01h para fazer nosso jantar. Comemos nosso macarrão made in Guyana e ficamos conversando, até que por volta das 02h30 uma voz grossa interferiu no silêncio da madrugada. Era Wando, o outro caseiro, que assumia o plantão. "Quem tá aí? Tá se escondendo aí?".

Por precaução, achei melhor sair e me apresentar. Expliquei que havíamos falado com o caseiro anterior, e ele assentiu que ficássemos ("Pode dormir aí sossegado que ninguém atrapalha, não!"), mostrando-se até simpático - apesar de visivelmente bêbado, já que estava vindo da noitada de Bananal, a praia vizinha. Despediu-se me abraçando e dizendo que se curtíssemos uma parada, para que fôssemos chamar por ele na casa.

Preferimos não saber que "parada" era essa e procuramos descansar para enfrentar mais um longo caminho no dia seguinte.

2º Dia - De Bananal à Provetá (15,7 km)

O dia amanheceu preguiçoso. Até arrumarmos nossas coisas, desmontar a barraca e começar a trilha, já era por volta de 08h30. Mas logo chegamos à Bananal.



A Praia de Bananal é conhecida não só pela tragédia de 2010, mas também por sua colônia japonesa, muito presente. Não é à toa que a primeira pessoa que vimos por lá era a cara do Senhor Miyagi. Bananal parecia ter saído de uma festa: As pousadas estavam lotadas, vários barcos estavam aportados em sua enseada e algumas ornamentações típicas destacavam-se na vista.

Está escrito "Matariz" nessa placa, você consegue ler?

Nos despedimos de Bananal e ficamos tentando desvendar as placas pelo caminho. A grande verdade é que elas sempre irão te deixar na mão. Direções erradas e improvisos sempre estarão presentes. Na dúvida, siga a dica infalível dos locais: Guie-se pelos fios da energia elétrica! Eles estão espalhados por todas as trilhas do lado do continente, basta segui-los e você sempre vai parar em algum lugar.


Seguimos pelo inferno verde sob muito suor. Apesar da temperatura agradável, o esforço era excessivo e começávamos a pingar.



A recompensa chegou assim que pisamos em Matariz, uma tranquila praia do meio do caminho.


Essa praia tem uma atmosfera bem pacata, apesar do passado agitado. Era por ali que funcionava uma fábrica de sardinha - dizem os mais velhos que o cheiro na época era insuportável. Pedimos informações e contornamos as ruínas da fábrica por trás, chegando à uma comunidade humilde onde uma nova trilha surgia.

A enorme Figueira Branca encontrada durante o trajeto.

Mais um pouco e chegávamos à próxima praia: Passaterra.


Pedro começava a reclamar de dores nas costas por conta da mochila pesada, e o inchaço no seu pé por conta de uma picada de formiga não colaborava muito. Demos uma parada estratégica para descansar e comer algumas mariolas.


Ancorado no píer, havia uma interessante embarcação do tipo rebocador, cujos marinheiros conversavam em voz alta em seu exterior. Logo os rapazes vieram em nossa direção e quiseram saber mais sobre o que estávamos fazendo.


Acharam bem legal a nossa ideia de dar a volta. Eles haviam vindo de Santos (SP), em uma viagem de 24 horas e resolveram passar pela ilha já que alguns tripulantes moravam por lá. Perguntei intrometidamente se eles não nos dariam uma carona até a cidade paulista, ao que me responderam: "A gente vai amanhã à tarde, ué."

Tomei isso como um sim e olhei ansiosamente para o Pedro. Ele não estava muito animado e, de fato, como eles só partiriam no outro dia, acabamos deixando a ideia pra lá. Bem que seria uma experiência e tanto viajar por 24 horas dentro de um pequeno navio, mas fica para a próxima.


E íamos seguindo em frente admirando a bela paisagem, conforme o sobe e desce dos caminhos. Chegamos à Praia de Maguariqueçaba.



Assim como Japariz, ela era cheia de restaurantes - bem mais arrumadinhos, e com uma praia muito mais bonita. Para um domingo, na hora do almoço, estranhamos a ausência de pessoas por lá. Vai saber...

Nossas andanças prosseguiram até pisarmos em Sítio Forte, a praia que parecia não chegar nunca. Definitivamente não é a praia mais linda do mundo, mas cumpre bem o seu papel de um recanto tranquilo e familiar na ilha. Suas águas são rasas e a paisagem é bucólica ao extremo, como um verdadeiro sítio, mesmo.


No lugar da areia, gramado. Os maiores perigos se resumem aos pequenos caranguejos que por ali circulam, em pequenos buracos formados na lama.


Uma escola nas proximidades aponta o início de mais uma nova etapa: a trilha T6, até Araçatiba - a última praia do lado continental.


Uma sequência de belas praias estariam agora em nosso caminho. A começar por Tapera.



As fontes de água emanam no trajeto, sejam naturais - vindas de poços ou cachoeiras -, como também dos chuveiros e bicas que nos deparávamos durante o percurso. Aproveitamos a parada em Tapera para encher os cantis e continuar andando.

A bela Tapera, vista de cima.

Mais uma beleza natural se aproximava: Ubatubinha!



Ubatubinha não nega as origens e aparece linda lá de cima. Ao nível do mar, também não decepciona: É uma praia gostosa, perfeita para relaxar.


Não resistimos a um mergulho. Dávamos sorte: Durante as trilhas, o sol se escondia entre as nuvens. E quando enfim chegávamos à praia, o sol aparecia para embelezar ainda mais a paisagem.

Os três patinhos.

O peito do pé de Pedro não é preto, mas é inchado.

O horário do almoço ia chegando e a fome impiedosa dos nossos estômagos reclamava por algo bom. Decidimos deixar para comer tão logo chegássemos na Praia da Longa, nossa próxima parada.


Reparem que o nome não é "Praia Longa", e sim "Da Longa". Não sabemos ao certo o porquê do nome, mas temos quase certeza que se refere à distância até a praia. Caminhamos por um bom tempo, mas enfim tivemos nossa recompensa com a beleza simples e hospitalidade local.


A Praia da Longa não tinha nada de mais, mas me cativou. Dei um mergulho por lá, tirei o sal do corpo no chuveiro em forma de gambiarra e cozinhamos. Não queríamos comer de novo o arroz com feijão de cada dia, então fui em busca de algum morador que quisesse me vender um ovo e um pouco de farinha.

Logo um morador me recebeu de maneira alegre e me deu dois ovos em uma cartela - e nem quis saber de tocar no dinheiro. Outro encheu meu copinho de farinha, e assim comemos um delicioso prato cheio de proteínas que nos deu mais energia para seguir em frente!

Aranha verde fluorescente esquisitíssima que vimos por lá

Com exceção das formigas assassinas e demais insetos estranhos que resolviam aparecer, eu simpatizei muito com aquele pequeno reduto de pescadores e crianças risonhas. Espero voltar na Praia da Longa algum dia.



Mais um bom caminho a frente e - nem acreditávamos! -, havíamos chegado à ultima praia do lado do continente: Praia Grande de Araçatiba. Depois dela, já estaríamos no lado oceânico da ilha.



Araçatiba tem seu charme e até parece uma dessas praias de cidades do interior. Com várias casas e pequenos comércios, possui mais estrutura do que muita praia do continente!

Pela trilha, passamos bem em frente ao Camping Bem Natural. Suas instalações são excelentes e possuem uma infraestrutura invejável. Até pensamos em ficar, mas R$25 a diária por pessoa estava bem acima do nosso orçamento. E lá fomos nós pela T8 rumo à Provetá...



Essa trilha é bem mais aberta que as outras e, em alguns pontos, poderá castigar aqueles que a façam em dias de sol forte. Felizmente não era nosso caso. Descendo por uma ladeirinha, logo chegamos à Provetá, uma comunidade evangélica tradicional que faz dessa praia um lugar único.


Cansadíssimos, sentamos no primeiro banco que vimos e ficamos pensando na difícil tarefa que teríamos: arranjar um lugar para passar a noite. Digamos que Provetá não seja o lugar mais turístico da ilha...

Perguntando aqui e ali, acabamos indo parar no Camping da Dona Creuza (!!), que nada mais é do que o espaçoso quintal de uma família não cristã - raridade no local. Seu Jaílton, o marido, cobrou-nos R$15 adiantados pela noite ("Me adianta o pagamento pra eu adiantar uma gelada!"), enquanto D. Creuza e sua filha limpavam os banheiros. 


Por R$15, estava ótimo. Lugar amplo, abrigado por árvores, em frente à praia e com banheiros limpos (sem água quente, claro). Aproveitei os poucos minutos de sol restantes para dar um mergulho - de bermuda - no mar delicioso de Provetá. 


Após um bom banho, nos dirigimos aos arredores da igreja para conhecer a cantina do local. Salgados saborosos e doces incríveis sendo vendidos a R$2 cada. Nos empanturramos de hambúrgueres, coxinhas, bolos e tortas e dormimos felizes. Essa foi a nossa janta.

Lá pelas 03h da manhã acordei e fui olhar o céu. Uma linda lua cheia brilhava juntamente com as estrelas, formando uma vista indescritível. Provetá, definitivamente, é um lugar abençoado.


3º Dia - De Provetá à Parnaioca (12,2 km)

Já tínhamos visto alguns animais nessa viagem, mas fomos acordados por um bem especial naquela manhã.


"De boas aqui curtindo Provetá"

Sabe-se lá como um pinguim (!!) foi parar bem no nosso camping. E como preferimos acreditar que pinguins são sinais de boa sorte, saímos motivados de Provetá rumo a Aventureiro pela T9 - reconhecida como uma das trilhas mais pesadas da ilha.


Provetá visto do alto da T9

Nossas expectativas para aquele dia eram bem realistas: Aquele seria o pior dia de todos! Enfrentaríamos uma trilha famosa por sua dificuldade extrema, atravessaríamos o temido Costão do Demo, depois cruzaríamos duas praias de acesso restrito (Do Sul e Do Leste), para então passarmos por um mangue cujo nível da água poderia bater em nosso peito até, enfim, seguir por uma trilha fechada e não-oficial até Parnaioca.

Complicado? Bastante...


Mas o dia começou incrivelmente produtivo. A começar pela trilha até Aventureiro: apesar da placa assustadora no início da trilha dizer que o trajeto pode levar até 7 horas (!!), a fizemos em pouco mais de 1h30. Apesar de íngreme, a trilha me pareceu bem mais fácil do que da primeira vez.


O sol até que resolveu aparecer, mas não adianta: Eu realmente não consigo gostar do Aventureiro. Acho que foi trauma. Seja como for, preferi dormir um pouco enquanto Pedro foi fazer um reconhecimento do local.

Vista do Mirante do Espia

Famoso coqueiro torto de Aventureiro

Tentamos não protelar o inevitável e, tomando coragem, seguimos em direção ao Costão do Demo. Sua travessia é proibida, bem como o acesso às praias seguintes. Se por acaso um fiscal nos flagrasse, possivelmente seríamos multados e expulsos da ilha. Vimos um homem uniformizado por perto e ficamos bem receosos. Foi com bastante tensão que iniciamos nossa perigosa missão do dia.

Repare a placa de "Perigo", à esquerda.

Um escorregão e "adeus"

Para piorar, as partes mais íngremes eram também as mais escorregadias, por conta da água que escorria por ali.


Felizmente os momentos tensos duraram pouco - bem menos do que esperávamos. Logo estávamos cometendo nossa segunda infração do dia, pisando da Reserva Biológica da Praia do Sul. 



A Praia do Sul parece pequena - mas só parece. Juntas, a Praia do Sul e do Leste medem 6 km de extensão - uma caminhada bem cansativa pela areia fofa, diga-se de passagem.

Ao final da praia, mais um desafio: a travessia do mangue!



Já li (e ouvi) relatos assustadores dessa travessia. Desde o volume da água - que poderia alcançar facilmente a altura do peito -, até a presença de jacarés e arraias de água doce, que podem causar sérios problemas. Imagine então qual foi nossa surpresa ao chegar no manguezal e dar de cara com... isso:

A água nem sequer cobriu os meus pés

Estávamos com muita sorte mesmo. 

Caminhamos pela areia da Praia do Leste - que nem estava tão suja quanto dizem - e até vimos uma ave de rapina pelo caminho. Mais a frente chegávamos ao fim, sem saber direito onde começava a trilha para Parnaioca.


Importante salientar que fizemos essa volta com quase nenhum planejamento - nem mapa tínhamos, tampouco sabíamos ao certo as distâncias a serem percorridas. Ao chegarmos ao fim da Praia do Leste, confundimos o início da nova trilha com o caminho aberto por um córrego. Desfeito o engano, ainda demoramos um pouco a nos situarmos pelo caminho de mata densa e de fácil desorientação. Precisamos recorrer ao facão.


Felizmente encontramos as fitinhas salvadoras que alguns trilheiros deixam pelo caminho e, mesmo com as medidas aparentemente erradas, nos guiamos por elas até chegar ao destino.


Enfim, Parnaioca!



A Praia de Parnaioca logo de cara conquistou meu coração. Que Lopes Mendes, Palmas ou Aventureiro o quê! Parnaioca reunia o que todas essas tinham de melhor e ainda oferecia muito mais.


Nos encaminhamos para o Camping do Silvio e fomos muito bem recebidos pelo próprio. A diária era de R$20, ligeiramente mais cara do que costumamos pagar, mas valeu cada centavo. Nosso anfitrião  é um senhor de 73 anos, dono de um dos melhores campings que já tivemos a oportunidade de estar. Seu jeito acolhedor nos fez sentir em casa. Melhor ainda: estar na casa de um avô!



Vascaíno doente, assim que chegamos Seu Silvio já foi tratando de nos acomodar bem, exigindo que descansássemos - já que havia acabado de perguntar de onde vinhamos. Mais do que isso, ainda nos ofereceu um delicioso almoço - arroz, feijão e mexilhões, dos quais eu exagerei um pouco na dose. Tentamos adiantar o pagamento na hora e quase ofendemos nosso amigo: "Deixa esse dinheiro pra lá! Aqui a amizade vem na frente do financeiro!"

Frente do camping

Havíamos chegado bem cedo - por volta das 14h30 - em Parnaioca, e ainda teríamos um bom tempo de sol pela frente. Fiz minha caminhada na beira do mar, nadei, comi, e ainda tivemos tempo de trocar um bom papo com Seu Silvio, que contou um pouco mais de sua história e a da praia, que confundem-se entre si.


Após presentear-nos com um mapa completíssimo da ilha, ele ainda nos deu as coordenadas de como chegar na cachoeira de Parnaioca - um dos melhores lugares que estivemos nessa viagem!


Seguindo pela estradinha de terra que corre atrás da vegetação, chegamos ao cemitério em frente à Igreja Sagrado Coração de Jesus. É dali que inicia-se uma pequena trilha que leva até a cachoeira e seus poções.



"Encantador" é pouco para definir esse lugar. Nenhum elogio em qualquer idioma consegue resumir a beleza desse local!



A noite vai chegando devagar e, de repente, tudo escurece de uma só vez. Sorte nossa que o camping tem um gerador que mantém as luzes artificiais acesas até às 22h. Dá tempo de cozinhar a janta - macarrão com atum! - e passar mal depois, graças ao excesso de mexilhão. O mal-estar logo cessa e, enfim, temos uma agradável noite de sono.

4º Dia - De Parnaioca à Vila do Abraão (15,8 km)

Último dia da volta à Ilha Grande! Mal acreditamos que já estávamos na reta final. Era hora de desmontar a barraca pela última vez e seguir nosso caminho.


Com muita dor no coração, nos despedimos do Seu Silvio e seguimos até o fim da Praia da Parnaioca em busca da trilha que nos levaria até a praia de Dois Rios. Um pescador corrigiu nossa trajetória e nos indicou o lugar certo onde a trilha começa: atrás do Camping da Janete.


Atravessamos uma pontezinha e logo chegamos em nosso ponto de partida. Antes disso, perguntei o custo do camping, que era de R$15. Mais barato, mas sem a estrutura - e o carisma - de nosso Camping anterior.

Iniciamos a penúltima trilha da viagem - e a mais longa de todas, com 7,8 km. Ela começa íngreme, mas logo se aplana. Confesso que pensei que ela fosse mais ampla, mas na verdade é bem estreita. Árvores e galhos caídos são uma constante, passar por baixo ou por cima deles é uma decisão que se toma quase sempre ao acaso. Aliás, aprendemos uma coisa: Não existe trilha difícil, o que existe é o peso da sua mochila.

Em alguns trechos, conseguíamos manter uma boa velocidade, encostando nas raízes e plantas do caminho. Em outros momentos, era necessária atenção redobrada para cruzar pedras e solos mais escorregadios.

Toca das Cinzas

Passamos pela Toca das Cinzas, pedra enorme onde os escravos ladrões eram amarrados e deixados para morrer até virar cinzas. O clima é bem medonho.



Com alguma dedicação, chegávamos enfim à Praia de Dois Rios em menos de 2h de trilha. Um lugar bem mais sossegado do que imaginávamos, apesar do passado dinâmico, cheio de histórias de fugas cinematográficas de presidiários.


É por aqui que se encontra o Presídio de Ilha Grande - ou melhor, o que sobrou dele após sua implosão. Suas ruínas deram lugar a um interessante Ecomuseu, repleto de histórias instigantes.



Seguimos andando pelas alas onde já estiveram figuras como Escadinha, Graciliano Ramos e Madame Satã, entre outros.


Por lá, acervos repletos de documentos importantes e até mesmo armas confeccionadas pelos detentos estão à mostra.



Foi bacana conhecer um pouco mais da história desse lugar que, queira ou não, acabou crescendo junto com o vilarejo de Dois Rios. Me impressionou muito saber da história dos colonos livres e demais reclusos que tinham o privilégio de poder cultivarem, fora do espaço prisional, suas hortas e ainda cuidar do gado. Tudo isso pela manutenção de um sistema responsável pela vida de mais de 1.500 homens.


Dois Rios não resume-se somente à prisão. Possui também uma bela praia e certa estrutura em seu interior, com casas construídas de maneira harmoniosa juntamente com igrejas, pequenos comércios e até mesmo um campus universitário.


Agora sim, era a hora: Estávamos em frente à última trilha - ou melhor, estrada! - que nos levaria, após quatro dias, até a Vila do Abraão. Fomos percorrendo o longo caminho e até nos demos ao luxo de pegar um atalho, próximo ao Poço dos Soldados. Apertadinho e íngreme em seu trecho final, até que aquela via alternativa nos poupou alguns bons quilômetros de caminhada.


A alegria foi imensa quando, já de volta à estrada, demos de cara com o mirante. O Abraão surgia - e junto com ele, o sinal do celular! Hora de avisar em casa, após dois dias sem contato, que estávamos bem e iríamos chegar vivos.

A chegada

Após 4 dias, mais de 60 km caminhados e 6 tombos depois, chegávamos sãos (?) e salvos ao fim da maior trilha de nossas vidas - até agora. Conseguimos entrar no seleto grupinho daqueles que encararam a Ipaum Guaçu e arriscaram uma volta a pé em toda sua extensão.


O cansaço e as dores fortes que superamos começaram a se fazer sentir naquele exato momento, e com força total. Mas o que importava? Havíamos acabado de realizar um sonho, após termos fracassado da primeira vez.

Sentia-me incrivelmente bem comigo mesmo. Mais forte e mais corajoso, pensei: Agora que já dei a volta na Ilha Grande, sinto-me preparado para dar a volta ao mundo!